A minha rotina sem ti


Acordei tarde, coloquei a primeira roupa que encontrei pela frente, não me maquilhei e saí de casa sem tomar café. Fui para a estação de metro, que para variar estava fechada, de novo greve, e reparei que me tinha esquecido do telemóvel. Desisti de voltar a casa e decidi seguir para o trabalho.

 Sentia-me nua. Estava tão desleixada. Encarei o autocarro lotado e o calor da rua até chegar ao escritório. Mesmo com pressa, dei "bom dia" ao porteiro, subi pelas escadas porque o elevador estava demorado, atirei a mala na minha mesa e deixei o computador a iniciar enquanto corria para a casa-de-banho para ver o quão feia e desarrumada eu estava. Encontrei aquela colega de trabalho que eu odeio e ela olhou para mim com dó e imaginei que a coisa devia estar feia mesmo. Olhei-me no espelho e aí tive a certeza. Lavei o rosto, belisquei as bochechas para parecer blush, apertei os meus lábios para ganharem uma corzinha. Respirei fundo e fui começar o dia de trabalho. Tive uma reunião inesperada, consegui mais um cliente e fui elogiada por isso. Pediram para eu ir a um evento ao fim da noite. Olhei para a minha roupa, tive vontade de chorar, pensei em passar no centro comercial e comprar uma roupa nova. Não deu tempo. Fui para o evento, fingi que não reparava que as pessoas me mediam da cabeça aos pés, fiquei com medo de te encontrar por lá, fiquei com medo de encontrar qualquer pessoa que tu pudesses conhecer por lá, mas não encontrei. Fiquei feliz por saber que ninguém te ia contar que eu parecia horrível sem ti. Voltei para casa, olhei para o meu telemóvel em cima da mesa e fiquei com raiva. Olhei para o despertador caído no chão, olhei para os pratos sujos na pia e corri para o banho. Coloquei o pijama novo que comprei semana passada, coloquei o meu filme preferido, preparei um chocolate quente que tomei enquanto assistia ao filme.

Já era meia noite e só aí tive tempo de respirar. Como podes ver, eu quase não tenho tempo para falar sobre ti. Acontece, num escorregão ou outro, raramente. Agora, pensar... pensar é outra história. E eu nem preciso de tempo para isso. Porra.

Desconhecido

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