E um dia o coração estilhaça…


As histórias de amor são mágicas e profundas até que um dia, por algum motivo, há um coração que se parte, que se estilhaça em mil pedaços e se transforma num puzzle por fazer.

E depois há alturas em que o corpo que carrega o coração dilacerado vai ter que cruzar os olhos feridos com os de quem o despedaçou. E surge aquela sensação de pulmões apertados que não deixam bater o coração, e as lágrimas procuram incessantemente os olhos sempre que o coração insiste em bater. E enfraquecemos.

Por muita força que alguém possa ter, há dias em que essa força que parece brotar do nosso peito deixa de chegar até à nossa alma e desfalecemos, caímos, tentando agarrar algo que nos possa segurar, o nosso orgulho, talvez, se ainda o tivermos.

As dúvidas surgem, isto é amor? O amor é esta confusão de sentimentos? Este sofrimento vale a pena? E talvez surjam também algumas respostas, que nos fazem perceber que o amor, se existe, é fraco, subtil, um sentimento-espelho que nos faz sentir por nós próprios aquilo que não conseguimos sentir por quem nos partiu o coração. Mas o amor também pode ser muito bom, pode trazer felicidade, mas a felicidade não é eterna nem incondicional, e às vezes é o amor que apaga a felicidade. Traiçoeiro este sentimento… A loucura dos incontrolados emocionais, mas quem é que consegue controlar totalmente as emoções, ninguém!

E então pode surgir a raiva, a tristeza, a saudade, a vingança, a resignação…uma série de sentimentos que são catalizados pelo amor. A vida perde o sentido por uns tempos e amaldiçoamos tudo à nossa volta e apregoamos que não temos sorte nenhuma, acreditamos que nunca mais vamos conseguir amar assim, aquela foi a última vez…é sempre a última vez. Passado esse tempo de dor, limpamos o sal da cara, lambemos as feridas e levantamos a cabeça. E a vida volta a ser o que era, apenas ficam cicatrizes, marcas em imagens, momentos, palavras que são guardadas no fundo da memória.
E nesse dia em que o coração se estilhaçou, achámos que não seríamos capazes de apanhar todos os pedaços e colar um a um para podermos voltar a ter um coração, mas mais tarde, damos conta que afinal até o fizemos. Fomos apanhando todos os vidrinhos que espalhámos pelo chão, sorrimos envergonhados e pedimos desculpa pelo estardalhaço.

Tatiana Albino ("Segredos aos Pedaços“.)

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