Eu não preciso de ti

Eu não preciso de ti. Eu preciso de perder a barriga, preciso de um secador novo para o cabelo e preciso mandar lavar o carro. Mas de ti eu não preciso. Talvez eu até precise de me vestir melhor, usar um corte de cabelo mais moderno e comprar papel higiénico – sim, está a acabar. Mas definitivamente eu não preciso de ti. Mas eu quero-te. Um diabético não deseja a insulina.  Eu não adoro o meu remédio para a tiróide que eu tenho que tomar todos os dias. Mas eu preciso dele. E um diabético precisa da insulina. Ambos por não termos opção. Eu não preciso que me entendas como nunca ninguém me entendeu, nem que me acalmes como sempre fazes, muito menos preciso daquele carinho no pescoço que me fazes sempre que me beijas, como se eu fosse a tua esposa e tu um soldado que passou dez anos numa guerra do outro lado do mundo. Mas eu quero que me entendas, me acalmes e me beijes dessa forma. Sempre.

Eu não preciso conversar contigo por horas todos os dias, nem deitar no teu colo e receber cafunés. Tão pouco preciso te ouvir falar apaixonadamente sobre as tuas séries favoritas por horas e horas. Mas conversar contigo, receber cafunés e ouvir-te falar sobre séries por horas a fio é o que eu mais quero neste momento. Não por necessidade, porque se fosse isso, não importaria o que eu sinto, seria somente algo de que eu preciso. Eu poderia, hoje por exemplo, ficar em casa, sem fazer nada. Mas eu preferia sair para passear contigo. A minha vida sem ti não seria impossível. Eu não ia morrer nem virar alguém em penitência abandonado nas montanhas. Mas contigo a minha vida seria muito mais divertida, não há como negar isso.

O meu remédio para a ansiedade tem quase o mesmo efeito que tu: acalma-me, deixa-me menos impulsiva e menos ansiosa. Mas eu não queria ter que tomá-lo. Já tu, se eu pudesse tomava-te de quatro em quatro horas, cinco vezes por dia, e o efeito seria seguramente melhor que o do remédio. O remédio não fica com os olhos fechados por vários segundos depois que me beija nem fala com voz doce quando precisa de me dar uma bronca. Dizer que eu preciso de ti seria minimizar todo o bem que tu me fazes. Seria como dizer que eu preciso de um remédio ou de camisas novas. Poder ser quem eu sou de verdade, sem ter que disfarçar nada nem esconder nem um pedacinho é algo que eu nunca tinha experimentado. E admito que é bem melhor do que eu imaginava que pudesse ser. E viver isso não é uma questão de necessidade. É uma questão de liberdade, de paz de espírito. A paz de espírito que tu me trazes quando me fazes carinho enquanto eu dirijo e quando me dizes, no fim de todas as mensagens: “Fica bem”. Não a paz de espírito que eu preciso. Mas a paz de espírito que eu quero. Assim como te quero.

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