Vá lá, fica


 Fica mais um pouco. No frigorífico tenho aquele sumo que tu gostas, aquele queijo amanteigado que tu adoras colocar no pão e temos pizza de ontem também. Fica. Deve chover daqui a pouco, pelo menos eu ouvi dizer. Mas se não chover, deve estar calor demais. Sei lá. Fica. Eu ligo o ar condicionado ou abano uma revista para te refrescar, se quiseres. Fica um pouco mais. Ou muito mais. Deve haver algum maço de cigarros teu perdido no meu armário. Tenho a tshirt largueirona com que gostas de dormir. E pus a gravar uns filmes bons na TV. Fica para vermos juntos.

Fica, vá lá. Eu lavo a loiça e posso ler para ti, também. Posso fazer uma tosta mista, que tanto gostas. Eu troquei os lençóis da cama para nós. Ou podemos ficar aqui neste sofá cor de vinho. Fica. Lá fora, está demasiado perigoso, vi nas notícias. Há arrastões por toda a cidade, grupos que assaltam nos autocarros e em esquinas. E os taxistas também são maus e podem te raptar ou algo do género.

Fica aqui comigo. Estou a ficar doente. Vês? Estou a começar a ficar com febre, tosse ou até cancro, sei lá. As minhas mãos estão a tremer e eu sinto que o meu coração está demasiado acelerado esta noite. Ficas para cuidar de mim? Fica, vá lá. A tua mãe pode esperar. As tuas amigas que dão em cima de ti, também podem esperar. A tua ex pode esperar. Até os teus amigos que não gostam de mim podem esperar. Fica, vá lá. Manda mensagem ou liga para eles e diz que foste dar um passeio por aí.

Fica. Tenho biscoitos de chocolate na cozinha. Tenho livros na prateleira. Não que queiras ler. Tenho jogos de tabuleiro, baralho de cartas ou algo assim do tipo. Tenho coisas para beber, para relaxar. Fica, porra. Tenho a tua série favorita no computador. Eu prometo não te magoar ao fazer cócegas. Prometo acarinhar o lóbulo da tua orelha e fazer-te massagens também. Ou colocar-te no meu peito e fazer-te cafunés até adormeceres. Podemos fazer amor, se quiseres. Podemos falar mal dos outros ou até de nós. Podemos ficar em silêncio, também.

Queres realmente ir? Tudo bem. Podes ir. Mas deixa-me com a tua boca. Os teus braços. A tua voz. As tuas pernas. O teu peito. Ou melhor, não vás, não. Fica aqui, que és o meu pedaço de luz. Tu és o todo do tudo que preciso.

Desconhecido (adaptado)

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