Ser solteiro depois dos 30

Existe uma espécie de mito. Não se sabe ao certo quem criou, nem em qual povoado longínquo, mas que parece uma ideia universal: ser solteiro depois dos trinta é, no mínimo, sinal de que alguma coisa deu ou está a dar muito errado. Será?

Existe quem encare isto como um mau presságio, ou que tema esta condição mais que a própria morte. Convenções sociais, "ficar para tia", ser rotulado como playboy ou vagabundo e outros blábláblás que não servem para absolutamente nada.

Há quem prefira encarar isso como uma oportunidade. Uma carta de alforria garantindo liberdade total e absoluta, sem ninguém para chatear ou querer controlar a sua vida. Será?

Imagina então tu, tu aí mesmo que estás a ler este texto agora. Imagina que tu vivias um relacionamento longo, estável, acreditavas que a vida estava resolvida até que, de repente, não mais que de repente – só que não tão de repente assim – a coisa simplesmente azeda.

Sim. De repente, não mais que de repente – só que não tão de repente assim – aquela pessoa que tu conheceste aos vinte e poucos não faz mais parte da tua vida e, agora, com os teus trinta e alguns, uma nova realidade se apresenta.

Em desespero, pois a ideia de estar só te apavora por completo, não importa quem, quando e muito menos porquê, tu procuras loucamente alguém para substituir no presente aquela pessoa que já é passado. Tudo para não se ver, e nem mostrar aos olhos julgadores dos outros, que tu encalhaste.

Não importa se tem ou não a ver contigo, se acontece ou não aquela conexão. Tu agarras-te àquela pessoa como a chance derradeira de felicidade e, se não der certo, na próxima esquina já estará à espreita do improvável amor eterno da tua vida. Pois, para ti, mais vale um relacionamento xôxo do que não ter nenhum. Será?

Do outro lado da moeda, com os mesmos olhos brilhantes de uma criança que acabou de ganhar a tão sonhada bicicleta, tu descobres que além daquele gelado de morango da gelataria da esquina que tu adoravas, mas que era o único que tu podias provar, existe também o de limão, abacaxi, frutos vermelhos, nutella, baunilha, papaia, kiwi, pistacho, doce de leite e mais uma infinidade de sabores, todos com uma colherinha e  à espera, ávidos, para tu experimentares.

Como um diabo da tasmânia enlouquecido, tu sais à procura de um, três, cinco e até sete de uma vez até te lambuzares. Chamas o chocolate negro de chocolate avelã, confundes nozes com amêndoas, mas está tudo certo. Faz parte do jogo. O importante é recuperar o tempo perdido, partir para as próximas conquistas – New is always better… Always! – e afirmar para si próprio que a vida, agora sim, é muito melhor.

Será?

Num desses casos líquidos tu podes de repente balançar para valer por um certo alguém. Porém, da mesma forma que vários dos gelados que passaram por ti derreteram e escoaram pelo ralo, tu vais descobrir o que é ir parar no esgoto um segundo após chegar ao paraíso.

E aí, das duas, uma: ou tu vais te agarrar à próxima pessoa que aparecer, esperando e prometendo mundos e fundos, ou vais mergulhar ainda mais na poço sem limites, atirando para todos os lados e olhando para tudo, menos para quem mais interessa. No caso, tu.

“Mas espera aí. Quem disse que este tipo de coisas só pode acontecer depois dos trinta? Isso pode acontecer em qualquer idade, porra!”

Excepções sempre existem, é verdade, mas havemos de convir que, nessa idade, tu já viveste – ou vais viver se ainda não passaste essa fase – um bocado de experiências que trazem consigo uma bagagem que permite entender as coisas com muito mais maturidade do que no auge dos teus vinte anos e sem aquela possível sensação de nostalgia em excesso das décadas vindouras, do tipo “a gente era feliz e não sabia”.

Conhece-te a ti mesmo, diriam os antigos gregos.

Pois ser solteiro depois dos trinta é a maior oportunidade de conhecer de verdade a única pessoa que vai estar a vida inteira contigo – basta olhar no espelho para descobrir quem é – e, mais importante, aprender a apreciar a sua própria companhia.

“É impossível ser feliz sozinho?” Não sei. Afinal de contas, no fundo, no fundo, ninguém completa ninguém. Mas se for para somar…

Porque ser solteiro depois dos trinta é a oportunidade única de encontrar a liberdade real. Porque só é livre mesmo aquele que tem plena consciência das escolhas que faz.

Se for para estar com alguém, que seja por escolha, por vontade, e não por necessidade.

Se for para deixar de ser solteiro depois dos trinta, que valha muito a pena. E que seja para valer.

Será?

Marcelo Gavini (adaptado)

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