Aperta a minha mão

Lembras-te da tua infância, quando caías e te magoavas? Lembras-te do que a tua mãe fazia para acalmar a dor? A  minha mãe levava-me no colo até à cama dela e beijava o sítio que me tinha aleijado. Então, ela sentava-se ao meu lado, pegava na minha mão e dizia: “Quando doer, aperta a minha mão que eu vou dizer ‘eu amo-te.”
Era sempre assim: eu apertava a mão dela e, sem falhar uma só vez, ouvia as palavras: “Eu amo-te, filha.”
Às vezes, eu fingia ter me magoado só para passar por este ritual com ela. À medida que fui crescendo, o ritual mudou, mas a minha mãe sempre encontrou um modo de diminuir a dor e aumentar a alegria em qualquer área da minha vida.
Numa época difícil, durante o Secundário, ela tinha sempre os meus chocolates preferidos, recheados com amêndoas, quando eu chegava a casa. Lá pelos meus vinte e poucos anos, a minha mãe muitas vezes telefonava num fim de tarde a convidar-me para vermos o pôr-do-sol. Deixava bilhetinhos debaixo da minha almofada quando eu chegava tarde a casa e, quando fui morar sozinha, mandava-me vasinhos de flores a agradecer as visitas que eu lhe fazia.
Mas a minha melhor lembrança continuou a ser ela a segurar a minha mão quando eu era pequena e a repetir: “Quando doer, aperta a minha mão e eu vou dizer ‘amo-te”.
Eu já tinha trinta e tantos anos quando, uma manhã, o meu pai telefonou para o meu trabalho. Era um homem seguro e lúcido, mas a voz soava confusa e amedrontada. “Filha, há algo de errado com a tua mãe. Já chamei o médico, mas, por favor, vem logo que puderes.”
Quando cheguei, o meu pai andava de um lado para o outro na sala e a minha mãe estava deitada no quarto, de olhos fechados, com as mãos sobre o estômago. Chamei por ela, tentando manter a voz o mais calma possível.

– Mãe, estou aqui.
– Filha, és tu? - ela balbuciou.
– Sim, mãe, sou eu.
Eu não estava preparada para a próxima pergunta e, quando a ouvi, congelei, sem saber o que responder.
– Filha, eu vou morrer?
Os meu olhos encheram-se de lágrimas enquanto olhava para a minha mãe ali, querida, deitada, tão desamparada.
Ao tentar descobrir o que responder, pensei: "O que dirias tu num momento destes?"
Hesitei por um instante, à espera que as palavras viessem.
– Mãe, fica tranquila, tudo acabará bem.
Apertei a tua mão:
– Mãe, eu amo-te.
Ela gemeu:
– Filha, sinto tanta dor.
Mais uma vez fiquei sem saber o que dizer. Sentei-me ao seu lado na cama e disse:
– Mãe, quando doer, aperta a minha mão que eu vou dizer ‘Eu amo-te’.
Ela apertou a minha mão e eu disse:
– Mãe, eu amo-te.

Esta cena repetiu-se muitas vezes durante os dois meses seguintes até à sua morte por cancro.
Nós nunca saberemos quando virão os momentos em que seremos provados com o sofrimento daqueles que amamos. Muitas vezes não teremos outra coisa a fazer a não ser segurar na mão e dizer “eu amo-te”. Mas isso será o melhor que poderemos fazer.

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