Tu não estás aqui. E ainda bem que não estás...

Às vezes, quando eu baixo a minha guarda e me permito pensar em ti sem julgamentos, eu desejo-te de novo com a mesma intensidade de antes. Eu tenho a certeza absoluta que eu não te esqueci. Eu sinto o teu perfume, ouço a tua voz, sinto-te a tocar-me, como sempre foi - aliás, como um dia foi.

Eu fecho os meus olhos e mergulho num devaneio apaziguador. Consigo-te ver bem ali à minha frente. Naquele momento, és só tu e eu nos meus pensamentos: "O teu cabelo levemente despenteado", "a tua pele clara ainda com aquela marca de sol da última viagem que fizemos", "as tuas mãos - as mais macias que eu já senti - ainda tocam as minhas com o mesmo cuidado de há tempos atrás". É só tu e eu, eu posso-te sentir...
No meu devaneio, esqueço tudo de mau que tu me fizeste. Não te faço perguntas nem te exijo explicações. Não preciso de respostas, não quero conversar sobre o que aconteceu. Não agora.

Tomada pelas boas lembranças, relaxo confortavelmente o meu corpo na poltrona e revivo tudo que passamos juntos há tanto tempo atrás. Todos os  momentos bons que vivemos ao lado um do outro passam lentamente pela minha memória como um filme que sinto prazer em rever: as brincadeiras, as  risadas, a companhia nos momentos difíceis, as festas, as noites frias em baixo do edredom...  desligo-me inteiramente do mundo lá fora, é só tu e eu...

Mas de repente sou tomada por uma angústia insuportável, sinto o meu coração a apertar-se e esforço-me para não abrir os olhos com medo de te perder. Tento desesperadamente te manter firme nos meus pensamentos, na ilusão de ter a tua companhia por mais alguns instantes, mas discretamente vejo-te afastar. E então eu não te vejo mais, tudo fica escuro e eu estou novamente só.

Abro os meus olhos e endireito a postura. Dou uma olhada em volta para me certificar onde estou, sinto-me segura aqui. De olhos bem abertos volto a pensar em ti, só que desta vez sobre o quanto tu me magoaste ... e tudo de mau que veio a seguir.

Tu não estás aqui. E ainda bem que não estás...

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