Eu vi pai e não gostei

Eu vi pai e não gostei. Foi sem crer juro, não costumo fazer isto. Só estava andar pelos corredores da casa e ouvi a mãe, a soluçar e com nariz entupido. Eu só decidi aproximar-me da porta do vosso quarto, estava entreaberta, então espreitei. Vi a mãe a chorar. 

Não entrei, fiquei mais um bocado e vi, foi horrível. Hoje percebo a frase " ninguém sabe o que se passa dentro de quatro paredes". É impressionante como às vezes não conhecemos todos os pontos de quem convivemos, isto também porque não mostram quem são. 

Hoje questiono-me: porque não me contaste o que vi? Eu vi-te fechar os olhos, quando sentiste o impacto e a força da mão dele na tua cara. Como fechas quando recebes um beijo dele pela manhã. Vi-te toda encolhida e a tremer, com medo, num canto do quarto. Quando antes só tremias por frio e encolhias-te e ele dava-te o seu casaco e abraçava-te. Eu vi-o a dar-te um pontapé, quando antes ambos usavam as pernas para correr, cair e rebolar na relva. Eu ouvi coisas feias, insultou-te e cuspiu na tua cara. Eu vi e não gostei. 

Tu reparaste que eu estava lá, sem querer cruzaste o olhar comigo. Olhei-te e li o teu olhar, dor, frustração, medo. Mas o teu olhar falou-me para correr, fugir dali, mas não sem ti. Eu corri, traumatizada depois de tudo, mas consegui trazer-te. Hoje aquela casa vejo-a em preto e será uma página virada do nosso livro.

Vera Oliveira

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