Alguém


 Desde o primeiro olhar, me perguntei porquê. Não sabia explicar. Nem mesmo agora as explicações tendem a ser explícitas. Anda tudo tão vago. Tornaste-te diferente aos meus olhos. Ali parecias-me tão desinteressante. Aqui pareces-me tão cativante. Ali não me interessaria. Aqui ardo por dentro quando me ligas.

Confuso. Dou comigo a andar as voltas com a minha cabeça, a pensar o que de interessante vi em ti… Foi então que tive a explicação. Surpresa. Surpreendeste-me. A tua diferença surpreendeu-me e cativou-me. Tantas vezes falo de como é bom haver surpresas na vida. Diria que tu foste uma das mais agradáveis que já tive. A vida é feita disto mesmo. Surpresas. Nada é deixado ao acaso. Elas vêm quando menos se espera. Estão ali “mortinhas”, para nos passarem uma rasteira. “Não me viste? Estava mesmo aqui”… Adoro que elas aconteçam em determinadas alturas. Aquelas em que menos esperamos sabes? Nós nascemos, crescemos, começa a criar as nossas raízes, vivemos, apanhamos com tudo aquilo que o viver da vida nos proporciona. Criamos novas histórias, novos laços, amigos e momentos, perdemo-nos no tempo, nas horas, nas ruas, nos afazeres diários, nos erros, por vezes caímos e choramos. E continuamos.

O caminho levou-me a apreciar a tua surpreendente diferença. Não, não esperava que isto acontecesse. Não estava a espera de gostar do teu primeiro “olá”, dos teus olhos brilhantes, da tua pele macia, da tua voz desconcertante, do teu riso eufórico. Apenas te quis conhecer por diversão, por me fazeres rir, por me sentir solto contigo. Podia ser eu próprio contigo. Sempre o fui e sempre serei. Mas à medida que fomos falando eu queria mais que isso, mais do que apenas diversão, rir-me ou dizer disparates. Queria ficar, e nada mais me importava do que estar ali a ouvir-te. Comecei a ver-te com outros olhos. É tão parvo. Como é possível estar a gostar de conhecer alguém que aos meus olhos é tão diferente de mim?

Não sei, mas esta diferença cativa-me. Tudo em ti cativa-me. Encantas qualquer um com esse teu sorriso. Impões a tua presença quando chegas. Poderosa. Exuberante. Sem meias maneiras. Menina que a vida muito cedo ensinou a ser mulher. És tudo aquilo a que não estou habituado a lidar. Totalmente decidida. Choras por dentro. Berras por fora. Essa tua capa deixa-me desconcertado muitas vezes. Não sei com o que contar da tua parte. A tua forma de ser encostou-me contra uma parede. Quis batalhar para deixar que ela me tocasse, mas não consigo.

Aos poucos vou-me moldando ao teu jeito. Vou-me sentindo disponível para ser educado por ti. Para me ensinares. Não, não me arrependo de nada do que fiz até agora contigo. Fui feliz. Acho que contigo tenho vindo a conseguir esquecer a minha rotina diária. Tens-me feito sentir vivo. Precisava disto. De me sentir vivo. Dás-me pica e adrenalina para saltar do caminho já trilhado. Não, não quero ir atrás de ninguém. Porque existe sempre um "alguém" que aparece sem se dar conta. Na mais ousada surpresa da vida. E, no meio dos dias cheios de rotinas pré-estabelecidas e de gente que nos absorve, por vezes, nem damos conta que "alguém" ali está. Contudo, apercebi-me que “alguém” estava a querer aparecer. É por este “alguém” que se sente-se a falta, reclama-se, ri-se, manda-se acordar e dormir que já é tarde, diz-se que se vai ao supermercado, que se vai ali e acolá. É por esse “alguém”, que se faz de tudo. Contam-se as piadas mais sem graça e têm-se as conversas menos interessantes, pois nem sempre há algo importante a contar. É bom ter um "alguém".

Coisas dos dias de hoje. A vida é feita de alguns “alguéns”, até hoje tive muito poucos e tu certamente começas a ser um deles.

André Sousa

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