És a minha insónia


Ó insónia que me metes acordada quando devia dormir, como todos o faz nesta hora da madrugada.
Penso. Só penso agora que vais ser tão grande neste mundo pequenino que tanto tens medo de viver…
Planeio o futuro como um dramaturgo planeia um belo teatro sem fim. Não me esqueço nem dos pormenores nem das mais detalhadas descrições.
Oh. Garanto-te que neste futuro só existiremos nós. Seremos adultos num mundo das crianças e crianças num mundo de adultos.
 Podemos ser assim? Assim seremos felizes.
Seremos nostálgicos e futuristas. Ou simplesmente viveremos no presente como se fosse a vida uma passadeira de correr. E quando for necessário recuamos ou avançamos no tempo.
Seremos nós. Com “estreliões” de defeitos. Com mil recaídas e conquistas.
Prometo que viveremos um para o outro neste mundo que planeio e devoro com sonhos. Ou se quiseres viveremos os dois num só corpo. Num só coração.
Seremos amantes e desconhecidos.
Estranhos e confidentes.
Omniscientes e enigmáticos.
Tudo num só dia. Numa só hora.
Confio-te a minha vida. Confio-te os meus segredos e pesadelos… E medos. Também tenho medo das pessoas, como tu.
Só não quero que estranhes ou entranhes quando souberes quem sou, porque serei sempre eu. A miúda que ama a noite, as estrelas e os suspiros que com tanta força esmagam o peito.
Estou a fazer planos para daqui a dois anos…Para mais de dois anos da nossa idade.
Espero que te mantenhas por perto de mim, não vás para longe. Nem decidas viver no céu. Promete-me que vais decidir viver comigo na terra. Ou então se não quiseres decidimos os dois viver na lua.
Promete-me que vamos ser quem eu sonho que seremos.
Vivo nesta insónia. E quanto aqui estiver, sonho o que eu quiser!
Porque não me vem o sono? Como me vem o sorriso quando te tenho comigo.
Sonhar implica repousar nesta noite onde o silêncio permuta e os planos dominam a minha almofada. Ela que me devia era obrigar a ressonar.
Pobre desta, que só me deixa pensar.
Já fechei os olhos umas quantas de vezes, já os abri outras quantas e nada muda. A não ser os minutos que não param de caminhar neste noite em que os cães só sabem ladrar.
Volto a neste sítio que me prende contigo.
Mas daqui a dois anos se calhar já não estaremos mais presos. Se calhar já não terei insónias. E se calhar já não terei a capacidade para me meter a sonhar a estas horas de grande pesar.
Amanhã obrigo-te que me acordes já que me obrigas a sonhar contigo. Ou então se não quiseres podemos combinar dormir os dois, que esta vez prometo que não irei sonhar.
Tenho de ir… matreira insónia.
Agora insónia, fica sozinha ou arranja outro sonhador que eu vou dormir que a minha almofada implora-me para me ter por instantes sozinha.
Insónia secreta insónia! Guarda os meus sonhos que eu guardo a tua identidade.
Quando quiseres dormir, dorme. Eu cuidarei dos teus sonhos como tu cuidas dos segredos.
Maltratada insónia que és pelos tolos que não sabem quando têm que dormir.
Boa noite fugitiva do sono.
Boa noite Insónia, tu que és pequena em algumas horas e grande em algumas noites.
Ó insónia. Pobre insónia!

Daniela Costa

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