Não sou perfeito, mas também não sou um monstro


Vivo em plena consciência com as minhas escolhas, as ações que naquele dia tomei como certas, os momentos de fraqueza em que me deixei explorar por aquele absurdo sentimento de insegurança, que de repente abraçava o meu corpo em busca dos meus mais profundos pensamentos...  Era neles que se mantinha preso, naquele pitoresco pensamento ingénuo que outrora subjuguei no pensamento esquecido do meu corpo.

Quanto mais tempo passa, mais incertezas tenho da escolha que fiz - ser “feliz”, ou pelo menos tentar. Arrependimento é a palavra que me causa pavor ouvir, é aquela de que me socorro sempre que os pensamentos voltam, aquela saudade, aquela paixão, aquele carinho que nunca mais vai voltar, a falta que ela me faz jamais conseguirá ser superado a não ser por um novo amor. É tão difícil ... quando te dizem “segue em frente” nunca te explicam quão difícil vai ser, não te dizem que vais te sentir rasgado por dentro como uma árvore a quem lhe cortaram uns ramos, esses ramos nunca mais voltarão à árvore e ela jamais será a mesma.

Vamos começar...
Somos amigos, grandes amigos, fazemos tudo juntos, contamos tudo um ao outro, não há qualquer questão somos os melhores amigos, somos nós mano a mano e vamos ser para sempre, esta ligação sabemos que não é normal não é comum, mas é um pouco como nós nos vemos aos dois, aquele pensamento sincronizado fora da esfera que todos os outros vêm, eles sempre viram, mas nunca realmente observaram, nós nem sempre vimos tudo a preto e branco, o certo e o errado. A nossa ligação estava mais forte do que nunca, mas de repente senti um clique (!!),  inexplicável,  não sei o que é, nem sei o que está a causar. Aos poucos sentia-o mais forte, parecia um sentimento, mas o que é que o causara?? Não sei, até que reparei que estávamos sozinhos, era só tu e eu naquele momento, não pode ser? Pois não? A dúvida ficou, mas o sentimento repetia-se cada vez que estávamos juntos, já não era normal, comecei a pensar, aquelas questões difíceis de sintetizar – Sou gay? O que é que sou? Isto é normal?

“Assustado”, estado normal acho eu a quem experiencia estes sentimentos pela primeira vez.
Todas as pessoas fizeram escolhas em toda a sua vida, pois bem a minha não foi diferente, tive de fazer escolhas difíceis, escolhas fáceis, escolhas arrependidas, escolhas agradecidas, mas foram as escolhas que me levaram a escrever este texto e tudo começou naquele dia em que resolvi colocar no fundo do meu pensamento aquele desejo que sentia, sim é verdade, resolvi ocultar aquilo que sentia, resolvi esquecê-los, resolvi guardar aquilo que nos unia, a nossa amizade e esquecer o pensamento que viria a por tudo aquilo em causa... em curtas palavras – tive medo.

Os anos foram passando, a vida dando voltas e aquele assunto já estava mais que esquecido na minha consciência de criança confusa com aquilo que experienciava pela primeira vez. Eis que sou atingido por aquela pessoa por quem sempre sonhei, era ela não tinha dúvidas. Quando dei por mim, já falava com ela com a maior naturalidade do mundo, mostrava-lhe a minha vida toda, contava-lhe as minhas histórias e pedia para ouvir as dela, adorava chateá-la e adorava que ela me chateasse. Antes mesmo de ela se aperceber eu já sabia, ela tinha de fazer parte da minha vida e eu da dela.


“01.01.2014”  - Nunca irei esquecer esta data, foi a melhor coisa que me aconteceu e claro foi contigo a meu lado... não trocava aquele momento debaixo daquela forma cónica grande tão especial . . fomos tão únicos nessa noite, tão nós ... ainda não sei onde arranjei coragem para te obrigar a ir ter comigo, talvez na última garrafa de champanhe quem sabe, mas os sentimentos eram puros sempre foram, formaram-se de algo lindo, e agora não esperava outra coisa senão que tudo corresse como sempre quisemos. Nós sabíamos que estávamos destinados a estar juntos de uma maneira ou de outra, sabíamos que íamos ser importantes na vida um do outro.

Apesar de todos os pequenos problemas, estávamos tão bem... eramos NÓS!
Fui de férias com os meus pais, e tive de te deixar por uns breves momentos sabia eu, mas o que não sabia era o que essa distância iria causar. “O que é isto?”,  falava eu comigo mesmo, sabia o que era mas não queria acreditar. Os pensamentos voltaram, aquele intrépido e impávido pensamento voltou, mas a minha única questão era porquê? Porquê agora? Eu estava bem agora, estava perfeito, foi sempre aquilo que quis, então porque é que voltei a pensar nisto? O que é que me voltou a libertar estes pensamentos?
“Não sei”. Não consigo entender o porquê de algumas coisa, o que é certo é que este momento mudou a minha vida e a minha forma de estar, mudou-me a mim e as pessoas á minha volta. Mais uma vez as escolhas que iria fazer vão me levar ao dia de hoje.

Não parei, desta vez tentei compreender aquilo que se passava no interior do meu peito, naquele pequeno aglomerado de tecidos que deixam viver, eu queria saber, eu queria saber o porquê, eu queria descobrir o que era ... se me arrependo? Talvez, mas fazer escolhas e acarretar com as suas consequências é o que nos faz ser humanos.


Procurei descobrir e claro quando é difícil fazer isso na realidade procuramos a maneira mais fácil, e ai encontramos em tons de “0” e “1” que levam a explorar todo mundo num pequeno ecrã. Foi ai que encontrei um rapaz. Wow e que rapaz, não era nada de especial pensei eu, era só mais um miúdo gay no mundo, mas porque não meter conversa, não sei se alguém me vai conseguir explicar o que estou a sentir mas não custa tentar perceber, right?
Mal eu sabia que dali, logo ao inicio, ia sair uma bela amizade, mensagens para cá e para lá, começámos a falar como se nos conhecêssemos à séculos, as conversas iam-se acumulando e a cumplicidade aumentando... era real? Ou era virtual? (...)


Mas espera, as férias acabaram. Voltava para casa que ia eu fazer? Tenho namorada, como é que posso ter estado as férias todas a pensar nisso? Mas que sentimentos misturados são estes? A minha cabeça estava um caos, estilhaçada como um vidro acabado de partir, não conseguia pensar direito e nem conseguia reparar no manto branco que de longe abafava o sentimento a que à pouco tempo chamara “NÓS”.

Tal como disse estava decidido, era pela segunda vez que os pensamentos intrépidos me assombravam a cabeça, desta vez resolvi arriscar e descobrir, mas perguntas-te... e então e ela? Era impossível não pensar, a melhor pessoa do mundo sem dúvida... mas eu não a queria perder, pode parecer complicado mas os sentimentos por ela nunca desapareceram, ela era já um pilar da minha vida. Mas não a estaria a magoar? Sim, eu sabia disso, mas o meu egoísmo falou mais alto. Mais uma vez são as nossas decisões que mais nos magoam, foi graças ao meu egoísmo que hoje me encontro aqui neste momento.

Querem saber o que se passou? Short version. Ela ao descobrir mostrou a pessoa espetacular que ela realmente é, tentou-me ajudar apesar de eu lhe ter mentido. Mais uma vez tentamos manter uma amizade, mas mais uma vez eu estava, inocentemente, convicto em magoá-la. Acabou. Só conseguimos olhar um para o outro em trabalho, a mágoa que tenho de ver nos olhos dela intensifica-se no reflexo dos meus, já nem aquele pensamento profundo de esperança existe, até esse desapareceu. Estraguei tudo e arruinei talvez a minha hipótese de ser feliz.

Tomei as minhas decisões, egoístas, individuais e próprias de mim, mas que por vezes podia ter incluído uma pessoa na minha equação, mas não o fiz. Pois bem. Hoje nado numa poça de arrependimento, numa poça em que um dia sei que me vou afogar. Respondi a algumas questões que tinha, tirei algumas incertezas, mas a verdade é que também tirei os ramos que tornavam o meu coração preenchido. Agora é altura de seguir o meu caminho.

Sou bissexual, mas a questão que me atormenta é? Porquê naquele momento em que eu era feliz?

Autor anónimo

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