Em segredo...


Lá fora a noite está fria. Acabo de chegar de mais um dia de trabalho. O quente da casa contrasta com a temperatura que se faz no exterior.
Acomodo-me por aqui. Mais um blá blá constante de notícias. Falam sobre os jogos, sobre o meu Porto e sobre tudo e o nada. Um blá, blá, blá, sem fim. Coloco as vozes, sem som. Olho. A casa está num silêncio apaziguante.
Decidi aceitar o convite do momento e decido eu próprio ficar num silencioso segredo. Aqui. E no segredo em que me coloco, surgem um conjunto de segredos. Meus, teus e nossos. Estes segredos que nos fazem sorrir por dentro, que nos fazem querer mais, sentir mais, viver mais. Desejar mais.

Todos nós temos segredos, mais ou menos escondidos ou revelados. Em segredo revelo que te quero. Aqui. Ali. Acóla. Onde der. Com roupa. Sem roupa. Com roupa, vejo-te despida. Sem ela, vejo-te elegante. Quando sinto o teu cheiro, fico inebriado. Bêbado de ti. Quando te digo bom dia, beijo-te em segredo. Faço-te minha. E torno-me teu. E assim, em segredo, vamo-nos pertencendo. Vamo-nos sendo. Mas em segredo… Meu e teu!

Queremo-nos assim desta forma, com a boca seca, com a fome do desejo de mais e mais, os nossos corpos pedem-se. Pintámo-nos e com as nossas telas de depravações excitantes, de loucuras lúcidas e de desejos irracionais, vamo-nos sendo. De cada um. Os gritos no escuro, os sopros de desejo e a dança dos nossos corpos, que outrora, estavam inertes, fazem-nos segredar, aquilo que vamos sendo. Amantes em segredo. E neste segredo sentimos falta de tudo o que cada um de nós nos dá e provoca. Mesmo que seja pela longo momento que um segundo tem, sentimos falta. Sentimos falta dos nossos olhares cruzados, das nossas mãos entrelaçadas e dos nossos lábios unidos. Os desejos exprimidos por esses olhares emotivos.
 As vontades por essas mãos firmes e as excitações por esses lábios viciantes. Segredos e segundos tão nossos.

Quantas vontades nos exprimimos em segredo? Inúmeras. Não precisamos de ter o dom da palavra, para nos dizermos: Quero-te! Os olhares, os toques, os diálogos, os corpos, falam por si. Segredámo-nos em silêncio, que nos queremos, todos os dias. Sendo eu o teu segredo, és-me tu o meu! Apaixonante, vibrante, excitante, dialogante, sorridente, porco, sujo, e no fundo tão nosso! Em segredo…

André Sousa  

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