Saudades de ser criança


Saudades de ser criança. Quando me lambuzava toda de iogurte. Quando o amor se exprimia em atitudes e palavras. Quando a curva do sorriso não era direita, mas o sorriso continuava perfeito.
Saudades de ter toda aquela alma pura, inocente, em que à mesa se tinha que ter aquela certa postura. Quando não precisava de euros, redes sociais, tinha apenas um álbum de fotografias dos momentos especiais. Apenas era feliz. Com a paixão da vida alimentando o coração e, sempre com a bicicleta na mão. Corria pelo mato, atravessava pontes de madeira desfeitas, saltava com todo cuidado as pedras dos riachos. Era tudo mais verdadeiro. Tudo vivido, minuto a minuto.
Saudades de ser criança. Em que tudo se juntava e jogava às cartas. Em que se escrevia o nome com as letras da sopa. Em que o melhor da vida era escrito em meras cartas. O cheiro das folhas velhas, as manchas de tinta pelo corpo. Inocentes "roubos" de rosas, em que fugíamos como raposas. Simples gestos, que se valorizavam tanto. Um "se faz favor", "obrigado" no meio de uma conversa. Acreditavas que voavas e, ninguém te parava.
Não havia contas, barreiras, encalhes da vida e, corações desfeitos por um amor que hoje fere o peito. Era tudo tão inconsciente, aquele tempo em que se saboreava a vida verdadeiramente.

Inês Palminha

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