Apetecia-me


Às vezes apetece-me fugir. Fugir para um lugar onde não haja complicações. Onde possa começar de novo, sem ninguém por perto. Queria distanciar-me de tudo o que prende o meu negativismo. Ir para um país novo, ver novas cidades, novas praias, novos restaurantes, novas lojas de roupa, novas músicas, novas caras. Apetecia-me.

Não é que esteja mal onde estou, nem que eu não esteja bem com as pessoas que me rodeiam. Mas aí é que se centra o problema. Não estou mal, mas também não estou bem. Não sei se é egoísta da minha parte dizer isto, mas queria começar do zero. Num sítio onde ninguém me conhecesse, que tivesse realmente de lutar por mim e mais ninguém pudesse intercetar o meu trajeto de vida. Mas sei que nada é como nós imaginamos, nada é tão criativo como as histórias que pintamos na nossa mente.

Imagino como seria se fosse assim tão fácil… Se eu pudesse chegar apenas com uma mala à Austrália, que prontamente conhecesse alguém que me ajudaria para que eu pudesse arranjar um espaço para mim – mesmo que não tivesse muitos meios – e , então, a partir daí seria a rotina de sempre. Levantava-me às 9h da manhã, às 10h saía de casa para ir tomar o meu café à beira da praia, depois ia direta para o ginásio. Quando saísse já era capaz de ser por volta das 13h, portanto ia tomar o meu duche e então ia almoçar uma bela massa bem no centro da cidade. Por volta das 15h30 ia ver as novidades das montras das lojas. Por fim, por volta das 18h ia tomar um cocktail com amigos que já tinha feito lá, pôr a conversa em dia, dizer umas piadas típicas portuguesas – nessa altura, já com saudades do meus país, das minhas pessoas. E assim ia vivendo, com saudade mas com a vida que eu imaginava.

Finalmente, perdida nesses pensamentos, vem-me um à memória – nem sei como se foi misturar entre os outros. Veio à minha memória aquele dia em que eu e estava sentada no sofá com a minha mãe, sem nada estarmos a dizer uma à outra, quando de repente ela me pergunta “Olha, queres ir comer uns bolos ao café?”. Também me lembrei daquele dia em que eu queria desesperadamente ir dar uma volta, mas a minha melhor amiga preferia ir para casa descansar, mas eu ouvi da boca dela “Vá, vamos lá! Eu sei que estás a precisar e vai-te fazer bem”. Lembrei-me de todas as vezes que não me apetecia ficar em casa, e então saía da minha para ir para outra, só para me juntar com os meus amigos. Também me recordei de chegar a casa, depois de um dia super cansativo, e ouvir a minha mãe perguntar “Então, como correu?”. E foi aí que percebi que toda a vida que eu tinha estado a imaginar segundos antes, não era nem um terço da boa vida que eu tenho agora. Era perfeita sim, na minha história não haviam lacunas, mas… De que serve uma história sem lacunas? Sei que ninguém tem uma história perfeita, e ter lacunas na nossa vida é “ótimo”. É ótimo porque se não houvesse lacunas, que lembranças ia eu ter das pessoas que me fazem bem? Nenhumas, porque eu estaria sempre bem, com ou sem elas.

Portanto, dei-me conta que não quero a vida que eu sempre imaginei para mim. Quero a que tenho agora, com lacunas e com as minhas pessoas, com as mesmas perguntas, com as mesmas rotinas. Porque são essas lacunas que fizeram com que as pessoas que são importantes na minha vida, conseguissem tornar-se assim mesmo.

Dei-me conta que a nossa imaginação é criativa, mas também me dei conta que a vida que tenho agora, apesar de não ser criativa, é a que mais me faz feliz.

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