Fica entre nós


Os lençóis agarraram a fragrância natural que o teu corpo exala e eu embrulho-me neles com um afinco delicado.
Mas não digas a ninguém.
Saíste há cinco minutos e já sinto saudades de repousar nos teus braços nus.
Mas é segredo.
Na almofada ainda se desenha a silhueta da tua cabeça, como se sobre ela ainda se abatesse o peso do teu corpo.
Mas não comentes por aí.
Escreveste sonetos de amor no espelho do quarto, apoderando-te do meu batom vermelho, sem saberes o que me irá custar a remoção de tais palavras (no sentido figurado e também literal).
Mas não são informações que se revelem.
Pela fresta da porta entreaberta esgueira-se um aroma a café forte e torradas, que deixaste preparadas antes de sair, e sei que o fizeste propositadamente para que a preguiça não leve a melhor sobre o trabalho que me aguarda.
Mas não confidenciemos a ninguém.
Ainda sinto na pele do pescoço o contacto suave dos teus lábios ardentes, os beijos flamejantes depositados na curva da minha mandíbula, o roçar dos dentes no lóbulo da minha orelha.
Mas mantemo-lo em sigílo.
De olhos fechados, o teu corpo ansioso curva-se sobre o meu com desejo e envolve-me num abraço apertado que emana segurança e ultrapassa a barreira do meu imaginário entorpecido.
Mas tal apenas pode ser sussurrado em confissão.
Memórias de uma noite etérea perdem-se por entre os cobertores de linho e um repuxar de lábios tenro instala-se em meu rosto quando tenho a certeza de que será para sempre.
Mas isso, fica só entre nós.

Rita Furtado

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