Se hoje me implorasses...


Se hoje me implorasses para ficar, eu não pensava duas vezes.
Sabes quão furiosa esse pensamento me volve? Ter consciência de que poderia abdicar de todos os meus sonhos, de todos os objectivos que alguma vez delineei para a minha vida, de todas as conquistas que planeio alcançar, só para me deixar embalar pela tua canção? Quase que te consigo odiar por me fazeres amar com esta intensidade, por me obrigares a pôr em causa tudo o que sempre quis para a minha vida.

Não era suposto teres acontecido. Que ideia foi essa, roubar-me assim um beijo mesmo antes de eu colocar um oceano de distância entre nós, de apanhar um voo para outro continente onde tu ainda não foste inventado, de ganhar asas e ser finalmente livre? Usurpaste-me a racionalidade lógica e milimétrica da vida, aquela pela qual eu me rejo desde que há memória, e vagueio agora por um labirinto ignoto de incoerências, tiritando de medo e insegurança, espreitando por cima do ombro, à espera de ser atropelada por emoções há muito escondidas.

Fizeste-me esquecer o que nunca fui, para ser o que sempre quis. Será por isso que se torna tão difícil partir? O antagonismo da história é obrigares-me a escolher e eu, ainda assim, eleger-te a ti. Porque na brevidade daquele olhar, mergulhado no silêncio das palavras (nunca me pediste nada, para ser sincera), criaste em mim uma ferida que não tem como sarar. Se ficar, culpar-te-ei para todo o sempre. Se partir, esta faceta que em mim surgiu apagar-se-á para a eternidade como uma mancha de tinta que na verdade não chegou a tingir o papel. Porque isto do amor é coisa de loucos.

Rita Furtado

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