Sonhos desconhecidos


Os pais são engraçados. Dizem sempre que temos de lutar pelos nossos sonhos, pelo nosso futuro. O que, mais tarde, se verifica que entram em discordância com as palavras proferidas por eles mesmos.

Ora, os filhos têm de lutar por eles mas, se o que eles querem para o futuro não for bem de acordo com o que os pais desejam, bem… Temos o caldo entornado. Em que ficamos, então? Lutamos pelo que queremos ou lutamos pelo que os pais querem para nós? Não quero parecer egoísta, mas falando verdadeiramente e, consequentemente, friamente, uma coisa anula a outra.

Por muitos bons valores que os pais nos transmitam ao longo da vida e, os que guardamos com todo o carinho no coração, não passam disso mesmo: valores, apenas e só. E valores não podem, nunca, ser confundidos com objetivos. Valores é do que a pessoa é feita, do que tem no seu íntimo mesmo quando se encontra sozinha. Objetivos são coisas que podem ser conquistadas por esforço tanto psicológico como físico. Objetivo é sinónimo de “rumo de vida”. Embora valores e objetivos, ocasionalmente, se encontrem a meio caminho, não podem ser confundidas porque não dependem um do outro. Ambos seguem caminhos diferentes, que mais tarde, podem ou não cruzar-se. Mas não são, necessariamente, dependentes.
Como tal, o valor que os pais transmitem aos filhos, desde muito cedo, é que eles têm de lutar pela vida. E, no fundo, é o que todos nós, filhos, tentamos fazer. Tal como os pais fizeram um dia.

“Vou para fora um tempo”, “vou trabalhar num restaurante”, “vou trabalhar numa loja de roupa”. São muitas destas coisas que muitos pais, para desgosto deles, ouvem. E o que dão como resposta, por norma, é: “Devias acabar o curso”, “devias ir para a faculdade”, “isso não vai dar em nada”.

Pais, percebo – em parte, porque ainda não sou mãe – que queiram o melhor para os filhos, mas os objetivos que eles têm para um futuro feliz, pode não corresponder com os vossos e têm de estar preparados para isso. Compreendo que seja doloroso vê-los tomarem decisões sozinhos, coisas que antes eram ponderadas e decididas por vocês. Compreendo que sejamos sempre os vossos bebés e que seja complicado gerirem a vossa vida quando, de um momento para o outro, deixamos de estar debaixo das vossas asas. Compreendo tudo isso. Mas pais, agora é a vossa vez de compreenderem os filhos.

Nós amamos-vos mais do que possam imaginar. Amamos-vos mais do que demonstramos, mais do que dizemos, mais do que tentamos esconder com o nosso mau feitio. Amamos-vos mais do que a nós mesmos. Amamos-vos mais do que tudo. E é importante que tenham isso em mente. É preciso que saibam, também, que esse é o mesmo motivo pelo qual nos chateamos tanto quando nos julgam pelos nossos objetivos.

Porque sempre nos incentivaram a que os seguíssemos e quando, finalmente, arranjamos coragem para partilhar os nossos sonhos convosco, fazem-nos sentir que falhamos. Que não era suposto termos o desejo que temos. Mas, pais, e se gostarmos de arrumar roupa? E se gostarmos de cozinhar? E se não queremos terminar o curso em que nos encontramos, porque surgiu a oportunidade da nossa vida? Qual o problema disso? Somos de uma classe mental mais pobre por termos gostos e, por consequência, objetivos diferentes dos vossos? Por muito que vos doa, por muito que não compreendam, apenas digam “Não era o futuro que escolheria para ti, mas tudo bem. Confio em ti”. Essas palavras, mudam toda a perspetiva da história.

A verdade é que os filhos só são dos pais até não precisarem mais deles. Muito honestamente, é a crua realidade do ótimo trabalho de ser pai/mãe. A partir do momento em que nascemos, vocês já tèm de estar preparados para a nossa ausência, mesmo que isso seja num futuro longínquo.

Nós não vivemos para vos agradar, mas vivemos pelo vosso apoio. Pode nem sempre parecer, mas é a mais pura das verdades. Não esperamos aprovação, apenas esperamos que confiem em nós e que acreditem, contra todas as probabilidades que acham saber darem erradas, que o nosso objetivo é o nosso certo e que vamos conseguir atingi-lo.

Quando criamos um objetivo e vamos em busca de cumpri-lo é porque nos transmitiram suficientemente bons valores de sermos fortes e independentes. De, no meio de toda a improbabilidade, conseguirmos ir à busca da felicidade neste sistema onde nos encontramos. De termos coragem para alcançarmos o 1% de felicidade que, creio, ser possível de encontrar. Não pensem que falharam, porque fizeram precisamente o contrário! Pensem no bom trabalho que fizeram para que nos tornássemos uns sonhadores realistas e por nos terem dado força para suportarmos os nossos objetivos às costas. Num mundo cobarde, fizeram de nós uns corajosos.

Porque pais, nós, filhos, também nem sempre entendemos o porquê de tomarem certas decisões na vossa vida, em muitas ocasiões tomaríamos decisões diferentes. Mas nunca vos questionamos. Talvez achamos que seria melhor fazerem as coisas de outra maneira, mas olhem, tudo bem. Confiamos em vocês.

A verdade é esta

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Amor bom é amor leve