dois mil e dezasseis


…. Já não tenho jeito, já não tenho talento ou se calhar nunca o tive mas sei que vontade não me faltou. Escrevia sem parar, de dia, de noite, quando não tinha nada para fazer ou quando já tinha tarefas a mais para realizar, havia sempre tempo, uns minutos retirados dali ou outros minutos vazios dacolá.

Hoje, já não sei. Escrevo mas nada me remexe… nem me visita nos sonhos, não fica na memória. Voa por aí, pelo vento, pelas teclas do computador, pelo som da boca de quem deixo ler. Enfim, voem enquanto eu ainda tenho as asas abertas…

Como é possível que estejamos em dois mil e dezasseis?

Sinto-me injustiçada com esta cronologia! Eu não me lembro de ter vivido este tempo todo, e como tal, irei mentir sempre que tiver de dizer em que ano estou. Eu estou no meu décimo sétimo ano e ponto final.

Não vivi a época da peste negra, da escravatura, da industrialização, nem de Salazar, nem do 25 de Abril. Eu vivi, apenas, a época da morte de Nelson Mandela, à prisão preventiva de José Sócrates Silva , a crise económica em todo o mundo ,desde dois mil e treze; a crise dos refugiados na Europa em dois mil e quinze, a descoberta da possibilidade de se poder viver em Marte, os atentados terroristas, a moda das miúdas engravidarem na escola, a moda de comer caracóis e pão de algas, a moda das redes sociais; a época do fenómeno de as regiões mais povoadas, como o caso de Lisboa e Porto, estarem a tornarem-se num donut. Já ninguém quer viver no meio da poluição para a qual que todos contribuímos! Já ninguém quer viver no stress, em que todos vegetamos! Já ninguém quer viver nas regiões mais degradadas! Todos querem elevar a qualidade de vida, todos querem pertencer às elites sociais e às modas de viver nos extremos da cidade, em frente a uma praia ou a um campo. É tudo lindo e perfeito! E o que estragamos? Não é tão fácil assim, como abandonar o “local do crime”.

Este ano de dois mil e dezasseis é uma série. Uma série real de coisas monstruosas que estragaram o século XXI, uma treta.

Um professor meu, que eu considero um sábio, e espero que ele morra depois de mim, disse-me que os vindouros irão ter uma qualidade de vida pior que a que ele teve, sacana do homem, revoltou-me com tais palavras, ai de mim se não lhe mostro o contrário.

Tal como Abraão Zacutt, eu irei fazer tudo para poder morrer de consciência tranquila e limpa, em que tudo fiz para evitar este terrível século marcado por atrocidades aos direitos humanos!

Em pleno século XXI ainda há racismo, xenofobia, escravatura infantil e sexual … e uma série de discriminações. Entramos na União Europeia e estamos deitados à sombra da bananeira, ou melhor, nem na exploração de bananas conseguimos estar no ranking dos países mais exportadores e, como queremos ser chiques a valer, achamos oportuno desenvolver outras culturas, primeiro veio o kiwi, depois os cogumelos, agora os mirtilos… bem, não fugindo do assunto, deitados à sombra de qualquer coisa ficamos… não aproveitamos os fundos comunitários europeus para investir nas pessoas, mas sim no alcatrão, porque é melhor ter estradas fantasmas, do que pessoas instruídas e inovadoras. Connosco perdemos o ideal iluminista, o lema self-made-man. Para quê estes dois mil e tal anos? Para esquecermos as vitórias dos outros que já morreram?

Uma vergonha… o povo português, que sempre foi aventureiro e guerreiro, agora em dois mil e dezasseis decide ser um povo covarde, limitado e imitador dos outros países, em nada vejo, a contribuir a favor da mudança. Povo lusitano onde andarás, seu medricas?

Desenvolvemos tudo o que é material, as malditas tecnologias, é tudo virtual, mas e então a fraternidade? A solidariedade? A realidade? Onde anda o nosso senso humanístico?

Humanidade e irmandade só mesmo em nossa casa, os outros que se amanhem. Que resolvam as suas lutas, as suas dívidas, as suas depressões, os seus aneurismas, os seus cancros, os seus esgotamentos resultantes de um ensino que em nada contribui para um melhor aproveitamento de qualidades co efetivas de cada pessoa. Aguentem o abandono, avozinhos das regiões do interior; aguentem o abandono, sem-abrigos residentes no CBD ou nas partes históricas das cidades; aguentem, famílias, as saudades dos vossos emigrantes. Aguentem enquanto não se decidem a erguer a cabeça e expandir a voz! 

Revoltem-se, ao menos, é provável que tudo permaneça igual, mas pelo menos irão sentir-se aliviados.

Daniela Costa

também poderás gostar...