Ele não regressa


Aceitar que há quem vá de vez e fazer o luto de uma perda que não é perda nenhuma é uma sábia manifestação de bom senso. No entanto, falar e escrever é bem mais fácil do que interiorizar, por isso o melhor é deixar que o nosso organismo se encarregue de evaporar os ideais inconcebíveis de regresso. Que me lembre, D.Sebastião não chegou a regressar na mítica manhã de nevoeiro.

Se a mudança progressista não ocorre a curto prazo, as arestas não são limadas num ápice e a postura não é alterada, não há como idealizar um regresso de alguém que partiu já desconstruído. Portanto, o facto de que as circunstâncias podem mudar uma pessoa, favorecendo um retorno extraordinário, é totalmente falacioso. Explique-se porquê.

As ocasiões inesperadas, isto é, as tais circunstâncias, servem apenas de alerta para futuros desencontros, mas é SÓ isso. Acreditam mesmo que uma personalidade construída durante anos com peças tão variadas consegue subpor-se a uma “circunstanciazinha inesperada”? Não acontece, meus amigos. Para quem lida com ela, esse “incidente” transforma-se numa ferida aberta, para quem a causou, é só um lapso facilmente contornável.

Deste modo, é bom que se perceba isto. Para quem ateou o fogo, é muito fácil ignorar esse feito, porque certamente não deve ser a primeira vez. Lidam-se com as consequências no momento, ultrapassam-se e aí, sim, passa-se à frente. As cinzas ficam arrumadas a um canto e tenta-se ao máximo esquecer que o mentor daquela obra monocromática foi o próprio. Tão deprimente para quem as tem que varrer…

E agora volto ao início. Como fazer o luto de uma perda que não se revelou perda nenhuma? Aceitar que determinada conduta não é a mais indicada para convívio diário, mas que, ao fim ao cabo, foi aquela pela qual ficamos embevecidos por mil e uma razões que nunca saberemos explicar é obra do diabo- uma incoerência tão comum e tão constatada que é impossível não reproduzi-la em palavras. Até parece fácil.

Tem-se falado de níveis de maturidade díspares na mesma faixa etária como forma de justificar as atitudes dos ateadores de fogo. À primeira vista, atenua os efeitos de quem apanha as cinzas, porque faz crer que o curso normal das coisas é assim. Contudo, não passa de outra falácia. Explique-se outra vez porquê.

Ser imaturo não significa que as atitudes não sejam boas, respeitosas e certas. As crianças sabem que não se deita lixo para o chão. Os adolescentes sabem que têm de continuar a fazer a mesma coisa e mais algumas. Os jovens também sabem que têm de continuar a fazer a mesma coisa e mais algumas do que aquelas que já faziam em adolescentes. Esta é a ideia natural de progresso cívico que hoje em dia não se vê em lado nenhum. Se repararem bem, falar de maturidade na infância parece ter mais sentido do que falar na fase adolescente e jovem. Eles cumprem, os outros não.

Sendo assim, e por ser difícil estar no papel de “varredor”, a solução é aprender que há pessoas que não valem mesmo a pena. É uma constatação penosa e eu ainda não percebi se há fórmulas para detetar esse tipo de pessoas, mas a repetição de ações ajuda a categorizar.

Fica um “nada” quando percebemos quem não vale a pena. Parece que todas as horas passadas com essa pessoa foram inúteis. Pior. Questionam-se as qualidades que nos fizeram autorizar que ela se aproximasse, porque depois do fogo ateado, tudo o que precedeu sinonimiza-se a uma quimera. Pior ainda. Pelo choque, as feições esfumaçam-se e a figura amorosa inevitavelmente construída quando se gosta de alguém desconstrói-se. Mas atenção que isto não é rápido e não tem efeito “antibiótico”, o que quer dizer que dificilmente a cura é feita em três dias. No entanto, é possível.

Não seremos os primeiros nem os últimos a forçar um luto, mas também não seremos os primeiros nem os últimos a perceber que há quem não tenha nascido para valer a pena. Acredito que existam caminhos tortuosos que nos levem ao paraíso. Não falo de novos amores e novas amizades. Explique-se novamente porquê.

Novas amizades para substituir as antigas e novos amores para substituir os antigos pode ser uma venda para os olhos. O fulgor em procurar indivíduos que substituam os anteriores poderá ser uma forma de ignorarmos uma desistência no campo de batalha. Chegamos assim a dois pontos divergentes. Se a substituição per capita foi o melhor, é porque a pessoa nunca gostou/amou de alma e coração. Se a substituição surgiu como força motriz de esquecimento, o mais provável é que, se houver um possível reencontro, uma Fénix renasça das cinzas e tenha mais poder do que ateador de fogo. Aí, os papéis invertem-se e este texto fará mais sentido para os ateadores.

D.Sebastião não regressa, mas quanto à Fénix nunca se sabe.

Ana Guedes

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