Carta ao meu ex-namorado


Hoje dei por mim a pensar em ti. Não, não fiques com esse ar emproado e não enchas o peito porque não pensei em ti dessa forma. Aliás, há muito tempo que consegui deixar-te ir embora. Doeu, mas consegui. O problema é que deixaste as tuas marcas. E isso está a impedir-me de seguir em frente porque tenho necessidade de me despedir de ti.

A verdade é que, pela primeira vez depois de ter conseguido deixar-te ir embora, consegui encontrar alguém melhor que tu. Alguém que me mereça como tu nunca mereceste e que se preocupe comigo como tu nunca te preocupaste. Sempre duvidei quando me diziam que ia aparecer alguém melhor que tu porque só te queria a ti. Mas a vida trocou-me as voltas e se tu sempre quiseste mais as outras do que me quiseste a mim, agora eu encontrei alguém que quero mais do que te quero a ti. Mais do que alguma vez te quis. Começo a acreditar quando dizem que precisamos de um exemplo do que não é um homem a sério para percebermos quando o homem a sério chega à nossa vida. É por isso que te escrevo esta carta. Para te agradecer. Para te agradecer por não teres sido homem, por teres preferido ser um miúdo que pega num coração como se de um papel se tratasse e o rasga logo de seguida. Graças a ti, consegui perceber qual é o homem que realmente me merece. Aquele que prefere magoar-se para não me magoar, que todos os dias se lembra de mandar uma mensagem para perguntar apenas se está tudo bem e que escolhe as palavras certas, na hora certa. Sabes, contigo foi tudo tão rápido. A tua sede de me ter era tão grande que passaste as etapas mais bonitas de uma história de amor à frente. E agora eu percebo o porquê. Tu não querias uma história de amor, tu querias satisfazer a tua carência sem te importares com os corações que tivesses de partir para te sentires realizado. E hoje arrependo-me de te ter chamado “namorado”. Porque tu não foste um namorado. Aliás, não foste nada, nem sequer amigo. Tu foste apenas um daqueles capítulos que passamos à frente na nossa história favorita porque são demasiado aborrecidos e nós queremos é chegar ao final. Pois é, eu cheguei ao final. E esse final é tão mais bonito do que qualquer capítulo que tu me fizeste viver.

Mas, por favor, não penses que não foste importante. Porque foste e muito. Contigo aprendi que o amor nos faz sofrer, aprendi a proteger-me e a não acreditar em palavras mas sim atitudes. Aquelas atitudes que tu nunca tiveste, sabes? Se não fosses tu eu ia apenas contentar-me com o pouco que eu achava ser muito. Mas agora vejo que mereço mais. Porque eu sempre dei 100 e tu 50. Tu fazias-me sentir pela metade quando na verdade a metade eras tu. E eu? Eu era a relação inteira. Dizem que numa relação há sempre um que ama mais mas na nossa isso não acontecia porque eu não amava mais, eu amava, ponto. Era a única a amar e isso trouxe-me uma dor dilacerante. Graças a ti percebi que não posso amar ninguém mais do que me amo a mim e esperei o tempo certo até voltar a dar o meu coração a alguém. Mas não te preocupes, não lho vou entregar de bandeja como fiz contigo. Vou dar-lhe metade. Só metade. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Da outra metade vou cuidar eu porque aprendi a amar-me sozinha. O amor que sentimos por nós próprios é o mais importante, sabes? Talvez devesses aprender a amar-te também, garanto-te que serás muito mais feliz. Não sei se ainda pensas em mim ou se ainda te ris da figura estúpida que fiz ao acreditar em ti, mas se estiveres a ler isto podes rir. Podes rir à gargalhada. E podes ter plena consciência de que já te superei, para sempre, e que esta carta é a prova de que toda a mulher consegue superar qualquer idiota que apareça na sua vida. Sei que quando me vires feliz por ter encontrado outro alguém, o que vais sentir não são ciúmes. Não sou assim tão ingénua. É apenas o teu orgulho ferido porque não consegues conceber que alguém seja melhor que tu. Mas, felizmente, existem milhares melhores que tu. E sabes porquê? Porque alguém que brinca com sentimentos e que destrói outro alguém por dentro não pode ser bom. Nem sequer merece respeito. Afinal, quando nascemos não nascemos todos para lutar pela nossa felicidade? Então porque raio alguém como tu tem de vir estragar essa luta? Porque é que existem pessoas que, como tu, vivem apenas para magoar outrém? Não consigo perceber e acho que nunca vou conseguir, mas podes ter a certeza que as pessoas que tu derrubas um dia se levantam e ficam ainda mais fortes. Mais fortes do que tu algum dia vais ser.

Não sei nada de ti há algum tempo, não sei se estás feliz ou se continuas a destruir quem por ti passa. Mas espero, sinceramente, que tenhas conseguido encontrar a definição certa de amor, assim como eu encontrei. Obrigada. Obrigada por me teres mostrado que a definição de “amor da nossa vida” está sempre por aí, às vezes só é preciso mudarmos de dicionário.

Cátia Barbosa

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