Hoje quero ser eu


A vontade apodera-se de mim, num determinado espaço e tempo. Ocupa-me de forma parcial quando a sinto. Tenho uma vontade louca de sair de casa, posso só sair mesmo da porta, mas tenho de sair. Posso só ir até ao jardim mas tenho de ir. O som da porta ao fechar-se e o facto de os meus olhos verem o horizonte é algo que me tranquiliza. 

Fecho a porta e vejo mundo e tudo o que o constitui, as cores, os cheiros, as pessoas. Sinto o que me rodeia. Quando vou olho. Olho para mim num reflexo de uma poça de água ou duma sombra emitida no chão ou numa parede; olho para os meus pés, olho para a relva, para as folhas e para o céu. Tenho a necessidade de estar cá fora, de viver fora de quatro paredes. As paredes metem-me pânico, agonia e um certo medo. 

Há pessoas que nascem para estar lá dentro, dentro de uma casa, de um prédio, de um escritório, até mesmo dentro de uma escola. Eu não. Nasci, para sair. Para ser livre. Para viver de forma leve e flutuante. Para viver no meu mundo, nesse mundo onde tudo é possível, onde não há regras, nem mordomias. Tudo tem de ser sentido e respirável. Não quero nada, não quero ter o dom de posse, não quero ter bens, esses são pesados e provocam obsessão. Só quero ser possuída, e quero receber. Receber boas energias, receber paz e segurança. Desde sempre senti que tinha de ir e não ficar. Ir com o vento, com a chuva, com os pássaros. Preciso de ouvir o som da chuva a bater no chão, preciso de sentir a relva molhada, o sol a aquecer as minhas costas e criar reflexos no meus cabelo. Isto é arte. É a natureza criar beleza no que radia. 

Não preciso de grande coisa para estar bem, não preciso muito mais, que puros elementos, elementos que me provoquem sensações e sentimentos. A humidade do ar dá-me dormência e melancolia. O calor dá-me humor e suor. O vento dá-me arrepios e desorganização. Adoro o Outono, o verão, a Primavera e o Inverno. Adoro-os a todos. Quero sentir texturas diferentes na minha pele e quero sentir de forma a estar conectada e presente. Quantas vezes estamos e não estamos presentes? Tantas. Quantas vezes ouvimos sem ouvir? Muitas. Quantas vezes prometemos sem cumprir? Bastantes. Não quero fingir que estou presente se não estou. Não quero parecer interessado se não estou. Não quero parecer interessante se não sou. Quero ser eu. Quero ser presente. Quero viver de forma real e brutal. 

Hoje fico com vocês que são a minha família. Ofereço-vos a minha companhia, transmito-vos boas energias, envio-vos todo o meu amor e agradeço-vos porque sei que sou difícil e penso de forma diferente. Contudo, vocês tentam todos os dias me compreender, atiram-me um beijo e dizem que me adoram. Não me esquecem. Peço desculpa, mas um dia eu vou por aí. Não sei bem para onde. Mas vou por aí viver, sentir, dançar com a chuva, pular, gritar, ver as estrelas e perseguir a lua. Irei por aí, pisar vários solos, várias cidades, várias realidades. Vou com desejo e muito prazer viver.

Daniela Costa

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