Sim, eu sei


 Sim, eu sei. Cada vez que nos apaixonamos é sempre algo fenomenal e arrebatador. Parece sempre que nada mais existe no mundo e cegamos completamente. É sempre único e é sempre mais intenso - por isso nos apaixonamos.

Eu sei o que se pensa e sente, não fosse eu também já me ter apaixonado algumas vezes. O processo evolutivo da paixão é sempre o mesmo, é impossível não nos apercebermos que estamos a entrar para a toca do lobo, ou melhor, do cupido. Ninguém é assim tão ingénuo. Paixão não se esconde e muito menos se finge, é completamente impossível dado a ser algo tão genuíno e espontâneo contudo nunca se toma por garantida e muito menos duradoura.

A paixão muitas vezes vem fácil, umas poucas conversas uns tantos sorrisos e lá estamos nós agarrados a algo que não nos queremos desprender. Esperamos para além da nossa paciência, não nos irritamos, damos mais de nós, sorrimos sem controlar, até mudamos os nosso horários para mais cinco minutos de falatório mas, embora a paixão seja fácil de sentir no começo, não é assim tão fácil de manter se não houver algo maior a sustentá-la.

A paixão vem de detalhes, nasce entre confissões. Vem de partilhas diárias, de conversas, de atração, de dedicação interesseira. A paixão toma conta quando o interesse pela novidade chega, muitas vezes por isso ela também vai tao fácil. Quantas vezes não parte sem avisar? Quando vai não deixa bilhete nem há retorno porque a paixão é leve - vive à flor da pele.

A sustentação da paixão não é o amor, ou melhor, não é só o amor pelo outro. São sentimentos paralelos e independentes na maior parte das vezes, atrevo me a dizer. Existe paixão sem amor e amor sem paixão? Existe sim, em diferentes fases de relações. A questão é que não resulta, daí a independência deles seja uma farsa, a meu ver.

Noutra perspectiva, o amor pelo próprio é o elo fundamental da paixão. O cuidado pessoal, o gosto pelo próprio e a não alteração de muitos hábitos "à priori" são alguns dos tais detalhes que vão fazer com que a paixão sentida não desvaneça. Há que continuar a cativar, a conquistar a sermos nós mesmos.

São os  próprios detalhes que nos fazem parar no tempo e confundir a paixão com amor. Quando os dois se confundem é possível sentir-se completo, é possível ter uma relação saudável. Quando se olha para aquela pessoa - não importa o tempo que passou - e a sensação é tão idêntica às primeiras vezes, o desejo ainda é maior e uma espécie de  orgulho surge por a ter ali ao lado, por ela gostar de  nós e sorrir de volta, isso é paixão e amor confundidos num só, num só estado perfeito de sintonia.

A paixão não é só física mas chegar a casa ao fim de não sei quantos meses ou anos de namoro e ver a minha namorada a tratar do cabelo exatamente como o fez na primeira vez que ficou em minha casa e acordou do meu lado não me é, de todo, indiferente. O irmos de viagem para um sítio qualquer e perder-me a observa-la enquanto sorri ou simplesmente conduz como se fosse uma novidade não me é, de todo indiferente. A questão é que não importa o cheiro do creme nem se ela é boa ou má condutora. É a capacidade de absorver estes detalhes, de os sentir mesmo! É não ser - pela terceira vez - indiferente nem deixar que um mero sorriso ou olhar se torne banal.

Ótimo é apaixonarmo-nos todos os dias pela mesma pessoa e perfeito é apaixonarmo-nos todos os dias pelos detalhes da pessoa que amamos e com quem queremos partilhar toda a nossa vida. Afinal, há algo melhor do que querer partilhar a vida com alguém?

Joana Rita

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