Silêncio ensurdecedor


Hoje, contrariamente aos outros dias, senti uma necessidade incontrolável de escrever. Não porque conseguia transpor o que vejo e sinto num papel, mas porque precisava de desabafar e refletir para comigo mesma. Estava quieta, em frente ao espelho, até que comecei a ver diferenças. Diferenças essas que me fizeram duvidar se valeram a pena ou não. Sei que hoje não sou a mesma, sei que hoje me perdi em algum lugar, em algum espaço, num determinado tempo, com uma determinada pessoa. Soube então, que algo me tinha moldado da forma mais quieta possível.

O silêncio estava a tomar conta de mim sem que eu me apercebesse. Talvez o grito da mente fosse expressado pela simples forma nova de agir. Não quis gritar, argumentar nem mostrar que algo me tinha enfraquecido, mas sabia que era isso que estava a transformar-me. Senti, de repente, uma necessidade de ficar em silêncio no mundo, ficar quieta no meu lugar, observar sem ser observada, viver sem ser vivida. Quis afastar me de tudo aquilo que me estava a ferir, como se, de uma ferida se tratasse. Ferida essa, aberta por minha própria vontade . Queria (quero) porque sabia (sei) que viria outra vez algo que me reconstituísse e me fizesse voltar a ser eu mesma, mas desta vez estava a ser diferente.

Olhei mais uma vez ao espelho. Vi um vazio e um olhar que, neste momento, não é o meu reflexo. Talvez o silêncio estivesse a tomar conta de mim, talvez fosse disso que precisava. De silêncio na cabeça e calma no coração.

A vida muda no momento que tem de mudar, muda quando alguém precisar da mudança, muda quando a pessoa estiver disposta a tal. Eu mudei. A vida mudou-me. Ele mudou-me. A vida que eu fiz e as escolhas que me tornaram o que sou deixam hoje saudades e memórias que jamais esqueço porque fazem parte de mim, como se estivessem tatuadas na minha mente e queimadas no meu coração.

Ser tua foi a melhor tatuagem feita em mim. Foi a melhor porque foi a que mais me fez sorrir, foi a tatuagem que mais me doeu a fazer, mas foi aquela que mais está permanente e marcante em mim. Decerto, a tua tatuagem foi a única que não sarou, talvez porque não lhe dei a devida e especial atenção que precisava, talvez porque me iludi ao contemplá-la que me esqueci que sará-la seria, o meu bem. Hoje, ao olhá-la, não me arrependo de a ter feito, mas arrependo me de não ter tratado dela à mais tempo.
Fiquei em silêncio.

Fiquei num silêncio inquietante comigo e com o meu reflexo, à medida que as lágrimas escorriam pela face.
Lembrava-me do quanto aquela ferida estava a doer e sentia que a estavam a abrir cada vez mais, coisa que eu, não queria. Estavam a tirar algo que fazia parte de mim, estavam a tentar apagar aquela tatuagem que ainda nem estava sarada.

Eu, estava ali quieta a sofrer silenciosamente, a ver de forma lenta e angustiante sem puder fazer nada, sem puder impedir ou implorar para que não fosse assim. Sabia que um dia tinha de ser, sabia que um dia iria acabar assim, sabia que um dia ia custar tanto como está a custar agora, no entanto, ainda tinha esperanças em ti, em nós, no nosso mundo.

Ver-te ir, está a ser o pior, não que não soubesse já que tal iria acontecer mas sim porque está a ser da forma mais cruel... Lenta e silenciosa.
Hoje, permaneço eu mesma nesse silêncio. Permaneço assim, porque é a forma que tenho de não ser observada e sim de observar.

O espelho está no mesmo sítio, o reflexo continua igual e a tatuagem... Ainda não sarou.

Há dores que não merecem ser sentidas, é o caso deste silêncio.

Joana Costa

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