Hoje passei pela tua rua


Hoje passei pela tua rua. Não era a rua da tua casa, mas a rua por onde eu passava sempre que me encontrava contigo. Aquelas pedras da calçada tinham sempre o mesmo destino, e continuam ter, mas com uma diferença: tu não estás no fim da rua, à minha espera. Tudo está igual; a pastelaria da esquina, a montra de vestidos de cerimónia, a garagem daquele senhor que faz redes de pesca, com o rádio sempre ligado. Tudo tão familiar, e tudo tão diferente, porque tu não estavas no fim da rua para me receber, para me dar aquele abraço que eu tanto gostava, ou aquele beijo no canto da boca, que me deixava sempre a pedir mais.
A pastelaria onde tomávamos café continua lá. Como eu gostava das nossas pausas para o café. Tu lias o jornal e eu olhava para ti, enquanto o folheavas. No fim perguntavas-me se eu queria ler, e aí eras tu que olhavas para mim. Acho que nunca te apercebeste da forma como olhavas para mim, com os olhos a sorrir, como se o simples facto de eu estar ali, a folhear o jornal ao teu lado, fosse o suficiente para te deixar feliz. E era, eu acredito que era. E quando já não havia mais nada para folhear, olhávamos um para o outro e dávamos as mãos. Não precisávamos de dizer nada, era perfeito assim.

Hoje sentei-me à beira mar, no mesmo muro onde tantas vezes falamos e discutimos. Ainda me lembro da última conversa que lá tivemos. Disseste que não me querias perder, pediste-me para continuar contigo, mesmo sabendo que não me podias dar o que eu te pedia. Tu sabias que não me podias dar, mas não quiseste saber: só sabias que não me querias perder. E eu também sabia que não me podias dar o que eu queria, mas também não quis saber: bastava olhares para mim e sorrires para eu perder a razão. E tantas vezes que eu a perdi.

No fim do trabalho, caminhei entediosamente para o carro, e sentei-me ao volante. O mesmo volante onde estavas sempre a tocar com o braço de todas as vezes que nos abraçamos lá. Passamos horas abraçados naquele carro. Não precisávamos de dizer nada, estávamos apenas abraçados. Eu tocava no teu cabelo, tu tocavas-me na cara, puxavas-me para junto de ti, e beijavas-me. Como eu adorava sentir o teu corpo junto ao meu, o teu beijo no meu pescoço. Ainda me lembro da primeira vez que me olhaste nos olhos, naquele carro. Não conseguias parar de olhar para mim, e eu quando eu olhei para ti, sorriste. Acho que foi esse o meu erro, olhar para ti. Porque foi aí que me apaixonei.

Olhando para trás, consigo perceber que foste a pior e a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. Sei que não faz sentido, mas para ti eu nunca fiz sentido. Fizeste-me gostar de ti, e quando começaste a gostar de mim decidiste que não valia a pena. E que raiva me dá pensar que para ti eu não vali a pena! Tantas vezes eu pensei que te podia fazer feliz, que tu é que não querias ver isso! Tantas vezes pensei que tu me podias fazer feliz a mim, mas que tu não querias! Mas sabes… ainda bem que não quiseste.

Quando te afastaste, comecei a pensar. Que o problema era meu. Que era teu. Que era nosso. Que era do timing. E quanto mais pensava em nós, mais pensava em mim também. Afinal o que queria eu da vida. Serias tu? Seríamos nós? Tanto pensei que me apercebi que nunca poderias ter sido tu. Nunca foste tu o que eu quis na vida. Estava tão apaixonada por ti que me convenci que eras tu me ias fazer feliz. Que eu estava precisamente onde devia estar. Mas não! Eu não estou onde devia estar! E tu nunca irias ser o suficiente para mim, assim como eu nunca ia ser o ideal para ti. Fantasiamos algo que, à partida, estava condenado, porque eu não pertenço a estas ruas, a esta cidade, a estas pessoas. Tu sim, estás onde devias estar. Tu pertences aqui, e sempre vais pertencer. Mas eu não. E foste tu que me fizeste perceber isso. Ao perder-me em ti, encontrei-me a mim. A dor que me causaste fez-me sentir mais do que nunca, desejar mais do que nunca ser feliz. Afinal nunca foste tu a minha felicidade. Nunca foste. Sempre fui eu a minha felicidade. E se precisei de te odiar para perceber isso, então agradeço-te teres-me feito odiar-te. Se foi preciso ter-te no meu caminho para descobrir o meu próprio caminho, então obrigada.

Sempre que passar naquela rua, a memória será inevitável. Mas sempre que passar naquela rua, também será mais certa de quem sou e do que quero fazer. E tu não vais estar lá à minha espera. E ainda bem.

Cristiana Sousa

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