Como se eu tivesse alguma escolha

- Por favor, vai-te embora.

- Como se eu tivesse alguma escolha. Como se algum dia tu me permitisses ter poder de decisão! Tu já decidiste que não és para mim antes de eu sequer tentar mostrar-te o contrário. Eu gostava que me deixasses ser o suficiente para que tu me fizesses ficar em vez de me mandares embora. Eu já corri tantos riscos por ti, porque é que não corres o risco de me deixar ficar? Tu, que me conheces tão melhor que toda a gente, e eu, que te conheço soberanamente. Nós compreendemo-nos e encaixamo-nos de forma tão desigual, mas é isso que nos dá piada! Ou achas que seríamos daqueles casais clichés que só falam de amor e de viverem a vida juntos para sempre? Poupa-me, conheces-me bem melhor do que isso. Eu quero falar de arte, de cinema, de bebida, de música e de promiscuidade. E tu bem sabes que eu podia passar o resto do dia a escrever sobre o que tu gostas de falar... Mas não deixas. Não me deixas ser eu mesma pois meteste nessa cabeça que no momento em que nos permitirmos sermos nós próprios, nos vamos destruir. E eu já estou cansada de te tentar mostrar que nós temos lugar na vida um do outro, estou cansada de lutar todos os dias uma batalha que nem é minha, mas sim tua. Eu tentei tanto, mas tanto, combater os teus demónios; mas tu nunca deixaste. Então eu vou, eu vou embora. Mas por favor sabe que quando eu for, eu não volto mais. Não volto. Como se eu tivesse alguma escolha.

Paula Cabral

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