Hoje vi-te

E o pior de tudo é quando sentimos aquela fisgada quando vemos a tal pessoa.

E confuso é quando estamos a ficar convencidos que estamos a começar a gostar de alguém que acaba de entrar na nossa vida mas é aí que nos enganamos. Esse alguém é-nos útil porque usamos essa pessoa como forma de esquecer a anterior. Errado eu sei. Mas assim que a primeira aparece reflectida numa música, num penteado que alguém usa do mesmo modo, no mesmo estilo de roupa, ou quando simplesmente essa mesma pessoa nos aparece à frente, o caso muda completamente de figura.

Isto porque tu, apesar do nosso contrato de amizade continuas a ocupar aquele espaço no meu coração que eu desejaria já ter deixado vago para uma nova ocupante. E ver-te assusta-me, alegra-me e corta-me a respiração. Como é possível querer esquecer-te mas ao mesmo tempo te querer possuir?

Hoje vi-te, encontravas-te naquele corredor e observavas atentamente a máquina de snacks que continua rídicularizada ao ponto de continuar a rejeitar moedas. Facto irrelevante. Olhas-me e cumprimentas-me com um sorriso. Perguntas como estou, sorrindo de novo. Nesta conversa banal de 2 ou 3 segundos sinto o meu batimento cardíaco disparar. Talvez não te tenha respondido como esperavas, talvez não tenha respondido como eu próprio quis responder. Apenas sei que após esse pequeno diálogo prossegui o meu caminho, com receio de ter que me aproximar demasiado de ti.

Quando voltei ao normal fiquei completamente irritado comigo mesmo. O facto de me paralisares com o teu olhar, o teu sorriso e a tua voz doce fazem-me sentir envergonhado de mim mesmo. Especialmente porque eu já tinha prometido a mim mesmo que a partir daquele dia eu estaria a apagar esse sentimento por ti. Falhei. A cada dia que passa e a cada dia em que apareces sinto que apenas o estou a amplificar. Como se não bastasse, todos os temas de conversa de grupo vêm sempre parar a ti. Não, não sou eu que puxo do assunto. Talvez te mencione, talvez faça alguém lembrar-nos. Apenas sei que quando menos espero falar de ti, ou ver-te, apareces sempre. É-me impossível dissociar-me de ti. E sinceramente não sei mais o que fazer. Não sei se te negue ou se me entregue ao que sinto por ti, consumir-te na minha imaginação e finalmente libertar-me de ti quando me sentir suficientemente forte para isso.

Pelos vistos aquilo que sinto por ti não atingiu a magnitude suficiente para recuperarmos tudo de novo...mas agora resta apenas este impacto que tens em mim. Agora que desapareceste do meu campo de visão entrego-me ao nada durante uns momentos. Permaneço neste lugar durante o resto da minha reflexão...até que tu, criatura dona do meu coração, sais pelo corredor. Pela milionésima vez estabelecemos aquela conexão que só tu e eu sabemos. Sorris-me, piscas o olho e sais à pressa para apanhares o autocarro, quem sabe. Atiras-me de volta para os suspiros, e dou por mim a cair na realidade...não existe mais o "nós"...Talvez seja hora de desistir de te esquecer, já que quanto mais te quero esquecer, mais te quero de volta...

Jules de Mendonça

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