O tempo não volta atrás


O tempo não volta atrás, por muito que lhe peçam para esperar um pouco, que implorem que volte, ele teima em seguir em frente, deixando para trás, muitas vezes, um forte aroma a saudade, mas não só...

Do  que ficou lá atrás, nas páginas já escritas da nossa vida, apenas podemos recordar os momentos que gostaríamos de eternizar, aqueles que soaram mais fugazes que um simples piscar de olhos daqueles que duram uns míseros milésimos de segundo e que por vezes nem damos conta que aconteceram. "O que é bom passa depressa", foi o que sempre me ensinaram e o que a vida me tem comprovado ser verdade, é como se a felicidade tivesse um prazo de validade ao qual não podemos fugir, e quando ele passa, mais tarde ou mais cedo, algo faz questão de colocar a nu os alicerces que fomos construindo aos poucos, devagarinho, passo a passo, contudo, de um momento para o outro tudo vai, aquilo que demorámos semanas, meses ou até anos a construir desaba em tempo recorde, faz com que todo o esforço e dedicação que empenhámos pareça ter sido em vão, faz com que questionemos se vale ou não a pena lutar pelo que acreditamos.

Numa importante obra da língua portuguesa, daquelas que nos impingem estudar durante o nosso percurso académico, eis que surge uma frase algo intrigante, confesso que ainda não entendi se é 'apenas' fruto da loucura do seu autor ou se é um importante lema de vida. "Tudo vale a pena se alma não é pequena" escreveu Fernando Pessoa na 'Mensagem', algo que após ler me leva a questionar a pequenez da minha alma... Será mesmo que vale a pena perder o nosso tempo com algo que sabemos que não tem futuro? No fim de contas passamos a vida a reclamar que o tempo, esse maldito, passa rápido demais mas depois gastamo-lo de uma forma tão displicente correndo atrás de quem nos trata com uma indiferença tal, que até magoa só de pensar. Não fossem essas pessoas tão importantes para nós e já havíamos desistido de gastar o nosso bem mais precioso com elas, não é que valha a pena fazê-lo, porque não vale, mas não conseguimos simplesmente deixar para trás, pelo menos a consciência não nos permite pois para ela é como se deixássemos uma parte de nós fugir, vá-se lá entender porquê... Será que precisamos mesmo disso? Eis a questão!

Quantas vezes já deste por ti lavado em lágrimas por alguém que não merece sequer o teu sorriso(?!), quantas vezes já tiveste de sorrir forçadamente para não mostrar o quão forte foi a dor provocada pelo que te acabavam de dizer(?!), quantas vezes não sacaste de um "está tudo bem" ou de um "não faz mal" quando por dentro acabavas de morrer? Provavelmente já terás perdido a conta às vezes que isto aconteceu, mas o que ganhaste com isso? Apenas fizeste com que a outra pessoa se sentisse um pouco menos culpada, tudo à custa da tua dor... Amar também é isso, sacrificar-nos a nós mesmos para que o outro não sofra, é abdicar do amor próprio em prol de alguém, mas, desculpem a minha sinceridade, por vezes, não vale a pena!

Talvez seja hora de deixar para trás o que não nos leva para a frente, ser um pouco como o tempo que só tem um único rumo ao qual não foge, uma estrada sem retorno, sem possibilidade de olhar para trás, pois "para a frente é que é caminho".

Alexandre Valério

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