Um novo acordar


Hoje o sol pareceu-me mais alto, mais luminoso e mais radiante. Olhei para ele e percebi a mensagem que me estava a transmitir. Estiquei os braços e senti que era eu que estava ali, novamente, eu e não aquele destroço humano que tu fizeste o favor de abandonar. Toquei a minha alma, senti que se ligava e levantei-me da cama, cheia de vontade de viver.

Esperei que me telefonasses, que mudasses de ideias, que visses a razão. Nada disso aconteceu. Tu só te querias ver a ti, o teu reflexo, a tua imagem e as tuas fantasias e ilusões. Eu fui um mero objecto nas tuas mãos. Nunca me viste como era e muito menos como sou. Usaste-me até à exaustão. Eu já não existia, simplesmente vegetava.

Chorei as lágrimas todas que se possam chorar. Gastei-as de uma só vez na esperança de que a tua imagem desaparecesse para sempre. Mas tu lá estavas, altaneiro e a comandar os meus pensamentos, sempre pronto a aparecer. Qualquer sombra, canto ou som fazia-me olhar para todos os lados com receio de te ver.

Não sei se já te disse mas a minha almofada passou a minha confidente e conselheira. Acompanhou-me todas estas noites de insónia, de tristeza e de sofrimento. Ela sabia e queria que eu ouvisse mas tu, mesmo longe, ainda aparecias nos meus sonhos para me torturar e deixar ainda mais cansada. Deixei de conseguir dormir.

Quebraste o meu coração em mil pedaços, tão pequenos, pequeninos, tão ínfimos que não se conseguiam voltar a unir. Não há cola que possa remendar aquilo que te me fizeste. O meu coração sangrou durante tempo demasiado. Eu esperei mas tu nunca voltaste. Foste embora e não olhaste para trás.

Fiquei encerrada num castelo de tristeza, tão escuro que nenhum cavaleiro conseguia lá chegar. Quis deixar de viver e a minha vida perdeu todo o sentido. Estava incompleta e a minha metade tinha desaparecido para sempre. Odiei-te mas sobretudo odiei-me tão profundamente que já nem sabia quem era.

As flores voltaram a brotar e a vida surgia em cada recanto, harmoniosa e convidativa. Senti um cheiro que me avivava a memória. Era o teu cheiro, o cheiro dos teus abraços, do teu corpo, dos teus beijos, do nosso amor. Inspirei profundamente e subitamente acordei do meu sonho dogmático.

O passado ficou naquela estante, bem arrumado mas de fácil acesso. Posso lá ir de cada vez que me der a nostalgia mas já consigo sorrir porque sei que existiu e não poderá nunca desaparecer. Mas eu quero é o presente já a pensar no futuro.

Sabes? Já não me incomodas porque sei, apesar da ferida ainda doer muito, vai sarar e ficar boa. É uma marca, uma cicatriz que servirá para meditar e aprender. A tua memória encanta-me mas o sofrimento está a esbater-se, a turvar-se na bruma e na ausência.

O meu castelo agora é outro, mais alto ainda, mas cheio de claridade, de torres que avistam muito longe e com setas certeiras. O amor que tive contigo está guardado, é só teu e meu mas eu quero viver e usar  o que tenho de reserva e descobrir novos caminhos.

Eu sei que te vou amar para sempre mas é um segredo que não posso partilhar. O amor nunca morre e vou encontrar aquele que me estenderá os seus braços, que me aperte contra o seu peito, que me beije tão apaixonadamente que me faça sentir que o seu bater de coração está em sintonia com o meu. Aquele que me ame.

E tu vais ficar na estante, naquele recanto, guardado, e vais ver como sairei vencedora desta batalha que tu começaste. Deixei de ser um farrapo e sou uma vencedora. Vou levantar a cabeça, abrir a porta, ir para a rua e respirar o ar puro e fresco que a  brisa matinal tem para me oferecer. Voltei a encontrar o meu eu e tu nunca mais o vais destruir!

Margarida Vale


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