Já não me dói

Hoje acordei e descobri que já não me doía. Houve um tempo em que eu não pensava em mais nada: no que aconteceu, no que perdi, no que mudou, no que me mudou. E apercebi-me que não sabia viver sem ti. Passar por ti na rua era um tormento, falar contigo era impensável. Até mesmo falar de ti era um nó na minha garganta, onde palavras se misturavam com sentimentos e saía algo ininteligível.

“Ela está bem”, diziam-me, e eu pensava em como era isso possível. Mas talvez eu tenha sofrido pelos dois; ou talvez custe mais a uns que a outros, visto que uns vivem o amor mais intensamente. E deixa-me dizer-te que eu vivi o nosso amor a mil. Vivi-o todos os dias, desde que acordava até o tempo em que me deitava; a única altura onde dormir era suportável pois podia estar contigo naquelas horas que pareciam segundos que, vagarosamente, esgotavam-se num ápice e ficavam comigo o resto do dia. Talvez por ter vivido o amor a mil ele tenha passado tão rápido. Tão depressa como veio deixou de dar mais, não era bem isto que querias e estava destinado a ser assim desde o princípio; já sabíamos no que nos estávamos a meter.

Talvez consideres o amor algo diferente. Talvez a tua definição seja diferente da minha. Ou talvez nem sequer te preocupes em definir o que mais te importa. Ou, talvez, eu não tenha sido isso no final de contas. Mas já não me dói.

Durante meses tentei convencer-me que já não doía, mentindo para mim próprio. Mas quando parei de mentir e admiti, deixou de doer. Pude finalmente colocar-te de lado e entender que há mais na vida do que cair em autocomiseração e prender-me a um passado irrecuperável.

Mas, entende, não te apaguei da minha memória. Tentei guardar-te no coração, mas reparei que aquele quarto empoeirado onde estavas não dava nem para guardar lixo, e tu mereces melhor; também precisava de o preparar para a próxima pessoa. Por isso encontrei um quarto aconchegado nas minhas memórias. Porta fechada mas não trancada, de vez em quando ainda vagueias pela minha cabeça; mas, em vez de chorar, sorrio: já não me dói.

Lucas Pereira

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