Delírios


Não é fácil, acordar e, frente ao espelho, ver algo a que não estamos habituados. A comum cara de sono, olhos semicerrados e face sem expressão é agora substituída por olhos lacrimejantes e um sorriso invertido nos lábios. Tentei perceber o porquê. Quando não consegui, tentei culpar alguém: a mim, a ti, a outros; mas nenhuma dessas respostas era a certa.

Às vezes acordava feliz. Talvez ansioso por ir ter com amigos, ou simplesmente satisfeito por ser sábado. Mas rapidamente subias-me à cabeça e enchias os meus pensamentos. Era complicado fazer o quer que fosse nessa altura, constantemente a olhar para o telemóvel à espera de uma mensagem que nunca seria enviada cheia de sentimentos que não viriam a ser reciprocados.

Se um pedido de desculpa ou um “volta para mim” me deixaria mais satisfeito ainda hoje não sei. Talvez estivesse à espera de um “desculpa; volta para mim”. Talvez.

Dia e noite agarravas-te a mim como numa relação simbiótica. Mesmo após me teres deixado nunca saías do meu lado, e bem sabes que nunca fui de aceitar metades. Viver assim não era para mim. E, no entanto, era eu quem não te deixava ir, e entendo agora que só quem quer ficar nos pode fazer bem. Mas eu, no fim de contas, acredito em ti: às vezes não é que o amor não seja suficiente, às vezes são as circunstâncias da vida que nos impedem de avançar. Ou seja, acredito que acredites nisso. Pelo menos é no que preciso de acreditar para manter um certo nível de sanidade mental.

É algo especial quando encontramos alguém que consiga adicionar à nossa vida. Algo simples como aquele cafuné que adoramos, aquele beijo que nos faz perder as horas de vista ou os olhares trocados ao passear na rua de mãos entrelaçadas. E do nada tudo termina. Algo que foi tão depressa quanto veio e, ao ir, decidiu desarrumar tudo por onde passou, e ainda conseguiu tirar-te o tapete de debaixo dos pés e atirar-te ao chão. E a tua sorte foi aquele chão estar ali, se não sabe-se lá onde tinhas parado.

Subitamente quem nada significava para ti toma o pódio na tua vida. Agarras-te a essa pessoa, talvez até com demasiada força, e de repente dás por ti a sufocar o amor em vez de o acalentar. É algo especial e raro quando alguém é capaz de adicionar à tua vida, mas o problema é quando substituis tudo por essa pessoa. Talvez por não saberes medir esforços queres tudo de uma vez; apercebes-te que é bom e, repentinamente, esqueces-te do resto.

Acho que, no meu caso, passou de raspão na loucura; nos meus delírios pensei que só precisava de ti. Que me completavas ao invés de adicionar.

Lucas Pereira

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