Frágil


Lá estava ele, frágil, com o seu bater ritmado sob a palma das minhas mãos. Cada batimento, cada troar, um sinal de vida, de continuidade, lembrando-me que o tempo não pára. Observo-o. O seu formato disforme, a sua cor forte e nada semelhante a qualquer outra, um movimento constante para cima e para baixo.

Cicatrizes cobrem a sua superfície, umas maiores outras mais pequenas. Que histórias terão para contar? Quanta dor carregam? Sinto o sofrimento que emanam. Sinto-as mas não as vejo. Tento tocar-lhes. Penso que se lhes conseguir tocar a sua história me vai passar a frente dos olhos, mas quanto mais me tento aproximar, menos as consigo sentir.

Uma barreira protectora luta contra mim ou qualquer um que se tente aproximar. Lendas dizem que não fui nem serei a única a tentar, mas não há quem sobreviva para contar a história. Porquê esta barreira? Tento aproximar-me de novo, mas desta vez reparo em algo mais. Os meus olhos vêem pequenas gotas, translúcidas, a escorrer lentamente pela superfície, umas atrás das outras. Começam a turvar-me a visão e eu recuo. Assim que dou um passo atrás, uma ferida nasce, uma dor lancinante percorre-me o peito. Quero tirá-la de dentro de mim mas não consigo. A dor é insuportável e enrolo-me sobre mim própria. A minha boca abre-se e um grito silencioso ecoa dentro da minha cabeça. Abro os olhos para olhar à volta mas estou cega, cega de dor, tudo é escuridão. Não sei para onde ir, não sei como fazer este sentimento parar.

De repente, silêncio. O troar pára por breves segundos, mas a vida continua. Eu sinto-a ao longe, muito ténue. Quero a barreira, quero não sentir, quero que isto pare. Sigo à s apalpadelas até que sinto aquela força a lutar contra mim, mas já não tenho forças para lutar. A dor consumiu-me. Encosto-me à barreira e deixo-me escorregar até ao chão, vencida. O tempo passa e eu mantenho-me quieta. Adormeço e acordo para um novo dia. Sinto algo a envolver-me, não são braços, mas é acolhedor. A barreira engole-me, sinto-me segura cá dentro, não sinto mais a dor e já não escorrem gotas pela superfície.

E ele? Ele continua, frágil, no mesmo sítio. Mas agora posso tocar-lhe. Estendo o braço e toco-lhe ao de leve. Os meus dedos reconhecem as cicatrizes que antes senti, mas elas não contam histórias, contam lições de vida. Passeio os meus dedos e reparo em algo que não senti antes mas que reconheço. É uma ferida que ainda não cicatrizou, a minha ferida. Também vai cicatrizar, também vai ser sentida mas não vista. E eu vou esperar por esta nova lição de vida. O tempo não pára, a vida continua, e ele vai sempre continuar frágil. 

VoDkA

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