Velho Amigo

Era um dia chuvoso. As pessoas à minha volta choravam e gemiam. Um caixão de madeira envernizado jazia no centro de um aglomerado de coroas. A curiosidade sobressaltou-me, quem teria falecido. Uma senhora de cinquenta e poucos anos, observou a confusão no meu rosto e abordou-me “ - Era jovem e parecia forte e saudável, é, realmente, uma pena”. Avancei para o centro e abri com algum esforço aquela caixa de madeira, que escondia o corpo culpado por provocar o sofrimento dos seus entes queridos.

E, assim, os meus olhos encontraram-te, meu velho amigo. És tu. Involuntariamente, as lágrimas escorreram pela minha face.

Percorremos uma longa viagem, não foi? O mundo nunca foi justo. Mas, eu devia ter sido mais forte, para te proteger.

Peço-te perdão, pois a culpa foi minha. Não consigo olhar para ti, sem sentir que a culpa foi toda minha. Nunca te dei uma chance. Sempre te prendi, porque tinha medo. A dor absorveu toda a minha coragem, toda a minha força. Tentei segurar-te, mas tu afastavas-te cada vez mais. Morreste, porque já estavas no fundo do poço. Na imensidão da escuridão, sozinho, sem uma réstia de esperança. Tentaste pedir ajuda.
Eu não abri o portão da fortaleza em que eras um prisioneiro. Primeiro petrifiquei e depois tomei-te como refém. O tempo passou. A tua raiva e ódio aumentaram e a a tua energia enfraqueceu. Eu nunca te deixei ver a luz, a esperança, o amor.

Enquanto a água da chuva se confundia com as minhas lágrimas, os meus lábios dirigiam-se a ti uma última vez “- Perdão, meu velho amigo.”

A senhora de cinquenta e tal anos aproximou-se curiosa e questionou se tínhamos uma relação próxima. Engoli em seco e respondi compreendendo o significado das minhas palavras e o seu peso no meu mundo. –“Dentro deste caixão, está o meu coração. Com ele senti dor, angústia, revolta e desespero, mas senti. Sem ele tudo o que resta é o vazio. O vazio que nos deixa simplesmente indiferentes.”

ObSidian


também poderás gostar...