Eras a minha música preferida

Ponho a tocar a minha música preferida mais uma vez, e quando a agulha encontra o vinil o leitor reproduz o som que deveria reconhecer de trás para a frente. Mas desta vez não reconhecia. Ouço atentamente as palavras ditas e a musicalidade que transmitia, mas nada. Nada. Não sentia nada. Não reconhecia a música. Volto a reproduzir e mais uma vez era-me ilegível. Estaria alguém a tentar pregar me uma partida?

Reproduzo todos os vinis que tinha guardado e nenhum era o que queria. Sentia-me perdida e sozinha no chão que me lembrava da neve pela sua frieza. A frieza que reconhecia também do teu coração, e da cama que deixavas vazia quando trocavas o meu corpo por um copo de whisky. Voltei a reproduzir o vinil que tocava uma música que nunca tinha ouvido antes. Caio no chão, mais uma vez, talvez agora fosse porque sentia saudades de ti, e o chão lembrava-me de ti, mas na verdade eu é que era o teu chão. Eu era o chão que tu pisavas, sem qualquer piedade.

As lágrimas salgadas percorriam o meu rosto, fazendo um trilho. A minha cara já estava acostumada a trilhos, que desapareciam com o tempo, e por vezes acabavam esquecidos. Por vezes trilhos de lágrimas, outras vezes trilhos dos teus dedos. Permito que aquela música me ecoe na cabeça, sentia raiva. E por momentos desejava-te mal, somente mal. Não me reconhecia, eu nunca te desejaria mal.

Os meus pés arrastam-se pelo chão, e o meu corpo procura uma saída, e encontram-na num copo, num copo cheio de tudo e de nada, bebo até sentir-me dormente. Mas nada me fazia. Continuava a tentar decifrar aquela música. Até que reconheço. Reconheço que aquela música eras tu. A minha música predileta, a música que queria ouvir todos os dias, e não me cansava dela. Enchia-me o coração, o problema é que me enchia o coração de palavras não sentidas, mentiras, manipulações do que era amor.

O som começa a repetir o mesmo excerto, há pausas na música. Aquele vinil somos nós. Gastos pelo tempo e pela saudade. Acumulamos pó e não nos soubemos cuidar. A música parou. Estragamos a música, e o amor.

Daniela Filipa Costa

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