Tu deixaste-me e decidiste não avisar

Se partiste por vontade própria ou se foi algo causado pelas circunstâncias que se te apresentaram eu não sei. Talvez até tenha sido mesmo por mero capricho; viste-te ao espelho e perguntaste a ti mesma se não conseguias fazer melhor. Não sei, sinceramente não faço ideia. Mas talvez tenha sido melhor assim. Agarro-me à esperança na forma de dúvida, mas certo de que, desta vez, não voltarias. São aqueles raros casos em que preferia não ter razão...
Em pouco tempo demoliste tudo o que tínhamos construído. Quando em pé sobre os escombros, calmamente saíste pela porta da frente como se não fosse da tua conta. Pensei ter visto tu a olhar para trás, mas pergunto-me se foi com um certo orgulho ou com algum arrependimento. Talvez tenha sido um misto dos dois, mas, uma vez mais, arraigo a minha força no saber de não saber, plenamente consciente da escolha que faço ao ignorar certas verdades absolutas.
Do nada fiquei sem chão. Sem chão, sem paredes, sem teto, sem nada. Quando te conheci pensei que era isto: havia chegado ao apogeu da minha vida e nada poderia ultrapassar-te. Durante tempo a mais isto foi verdade. Quando eu te disse que não ia conseguir sobreviver sem o teu amor eu estava a falar muito a sério. Claro que tu na altura nem ligaste, já estavas com a tua mente no próximo, bem longe de mim e a pensar em como me deixarias sem avisar. Isso não me magoa nem me magoou. Mas era escusado teres-me mentido ao dizer que encontrar alguém para ti era a última coisa em que querias pensar; que querias primeiro encontrar e focar-te em ti mesma. Talvez para ti tenha sido suficiente ir ao espelho e ver o teu reflexo para te encontrares.
Destroçado e sem saber o que fazer simplesmente deixava os dias passar. Dia após dia, sem esperança, sem mudanças, sem um pingo de alegria ou amor a correr nas minhas veias que transportavam solidão e melancolia diretamente para o meu coração. E eu esperei. Esperei que alguém aparecesse. Fosse ela ou fosse outra pessoa fiquei estagnado na expetativa de um salvador, de alguém que me levantasse e abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem; que me desse a mão e que permitisse sentir o calor humano que tanto me faltava.
Hoje entendo que a bipolaridade de se querer estar junto de alguém com quem já se está é um indício de que algo não está a correr bem nessa relação. Quando tu mesmo deixas de ser suficiente e partes do princípio que a outra pessoa já faz parte de ti.

Lucas Pereira


também poderás gostar...