A minha vida eras só tu, mas a tua não era só eu

Há meses e meses que sabia que não estávamos bem. Já não olhavas para mim com aquele brilho nos olhos que me fazia duvidar da própria realidade. O teu toque era frio, em vão. As palavras já não fluíam com a mesma intensidade com que outrora fluíram. Já não me pertencias, e eu sabia disso.

Durante meses tentei procurar forças para encontrar o meu eu, que fui perdendo com o desprezo com que insistias em tratar-me. Agarrei-me às pequeninas frases que lia naquelas tardes de inverno, tardes essas que costumávamos passar nos braços um do outro. Agora as lágrimas escorriam, e não tinha quem as amparasse. Agarrei-me ao discurso motivador de todos, que nada tinha de motivador, porque só eu sabia a brutalidade da dor que carregava todos os dias, e que insistia em ficar, ao contrário de ti, que te afastaste com a maior das naturalidades.

Queria reviver o meu eu do passado, a rapariga alegre e espontânea que vivia neste mundo sem saber que caminhavas nele. Mas tudo o que conseguia reviver eram as vezes em que achei o meu porto de abrigo nos teus braços, mas afinal não era só meu. Todas as vezes em que achei que era o motivo do teu sorriso, mas estava claramente enganada. A minha vida eras só tu, mas a tua não era só eu.
Agora acordo todos os dias com o fardo de saber que o teu amor era meramente uma ilusão. E continuo a não te ter aqui, para me amparar as lágrimas.

Ana Filipa Cunha

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