Perdi-te, e a culpa não foi de ninguém

Perdi-te...
E a culpa não foi de ninguém.
Depois de todo este tempo, sei que, se voltasses, os meus dedos ainda saberiam de cor cada sarda do teu rosto e cada sonho do teu coração.
O meu... Nem te falo sobre ele, sobre a pena de acabarmos os dois em maus lençóis.
Mas sabes? Fico contente por te ver. Estás com bom ar. As tuas bochechas ainda tem as covinhas do costume. Estás corado. E acho que até perdeste algum peso relativamente à última vez em que te vi.
Bom para ti.
Bem sei que o mesmo não aconteceu comigo.
Reparo no colarinho da tua camisa. Reconheço-a. Foi o último presente que te dei. Faço um esforço tremendo para que os meus olhos não se prendam no tecido, mas a minha mente prega-me partidas, e as memórias de um tempo em que o amor era uma realidade e o nosso futuro apenas uma questão de tempo, querem raptar-me do aqui e agora,
Não queria dizer-te isto, mas... dói-me ver-te.
Mas aceito a dor.
Torna real um Mundo ao qual não pertenço, um presente que nunca quis tomar como meu, porque nunca acreditei que não acabássemos no mesmo amor.
O facto de te ter perdido, deixa-me sozinha com os meus pensamentos, e a tua ausência traz os pesadelos de volta.
Mas é melhor do que nunca ter tido a oportunidade de te amar.
Sei o que estás a pensar.
Pareço diferente. O teu olhar para pelo meu rosto.
Procuras aquela que conheceste um dia?
O relógio andou mais depressa para mim. Perdi dias da minha vida na esperança que o Sol sorrisse, e que as estrelas voltassem a delinear o futuro dos sonhadores.
Sempre me considerei uma romântica incurável.
Mas hoje... tenho círculos negros por baixo dos meus olhos. Não consigo dormir muito bem. Sinto a falta do calor do teu corpo ao meu lado, sem os teus braços a trazerem de volta o sabor de outros tempos.
Sabes qual é a nossa memória que eu mais prefiro?
Lembras-te de quando fomos aquele casamento? No meio do Verão. O por-de-sol estava brilhante, o céu em laranjas e azuis, os meus tons preferidos, por serem as cores que vejo no teu olhar. Ficámos até mais tarde, no meio de uma música que já nem me lembro... e se calhar nem havia mesmo música, era antes o produto na nossa imaginação no nosso próprio Mundo. A noite ia alta, e começou a chover de repente. Olhámos para o céu sem querermos acreditar , e continuamos a dançar. Os teus lábios beijavam a minha testa, e o teu cheiro a menta, a terra molhada e a saudade inundava as minhas narinas.
É o momento que tenho gravado na minha memória.
E sorrio com ele, mesmo que seja um sorriso melancólico.
Agora tenho que ir.
Até um dia.

Ângela Santana

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