Sei que já me esqueceste

Ontem passei pelo jardim onde era costume estarmos. Olhávamos um para o outro, de olhos nos olhos e sem nos importarmos com o que estava à volta. O que interessava éramos nós e mais ninguém. Continua bonito e frondoso, cheio de árvores e flores. Já não se devem lembrar de nós, das promessas que fizemos, das juras que trocámos e dos beijos que demos.
Nem tu. Já me esqueceste e para ti fui somente alguém que ficou muito lá atrás. Sei que deitaste fora as nossas fotos, que rasgaste as nossas cartas e que queimaste tudo o que te ofereci. Sei que és assim porque nunca irias mudar. Só eu acreditava em ti, que tu ficarias iferente mas era uma simples ilusão. Eu nunca deixei de ter amar. O meu coração partiu-se, em pedaços mil, escondidos debaixo das memórias e das sombras daquele amor que julguei para sempre. Nunca mais será o mesmo, despedaçado e jogado fora como se fosse uma coisa qualquer.
Recordo tudo o que vivemos, o nosso amor de ontem e as alegrias que tivemos e pensámos serem para sempre. Afinal era só eu que tinha fé numa relação que estava condenada. Como foste capaz de ser tão cruel? Onde tinhas o coração para manipulares os meus sentimentos como se fossem aparas de coisa nenhuma? Como? O jardim continua calmo e não vi nada do que sobrou de nós. Nem uma sombra, nem nenhuma migalha daquela felicidades que pensei espelhar. Sentei-me no banco do costume e não consegui deixar de me lembrar dos momentos partilhados, das nossas conversas tão doces e dos beijos trocados. Como eu te amava! Mas estava cega de amor e não via a verdade.
Tu esmigalhaste o meu amor e moeste-o com a raiva que veio depois. Sabias que eu faria tudo por ti e a tua maldade foi superior. No fundo sei que me amaste, um dia, talvez, muitos antes de eu te amar sem o saber. Fomos felizes e não o sabíamos. Vivemos os nossos momentos, aqueles que não nos podem roubar e que nunca irei esquecer.
Se eu pudesse parar o tempo um pouquinho, voltava aos dias em que tudo era sol, claridade e tanta luz que estava ofuscada por ti. Agora tenho a certeza, o amor nunca morre. Pode ficar um pouco adormecido mas reaparece quando um pássaro canta mais suave, quando uma estrela brilha mias forte ou quando um sonho desperta aquela ânsia de viver até ao limite.
Sentada naquele banco recordei o último dia, o derradeiro, o que ficou cinzento, escuro e enevoado. O dia em que tu, finalmente, me disseste o que eu era para ti. Nada, absolutamente nada, um simples amontoado de células, espalhadas de modo convencional mas que não te diziam nada. Doeu. Chorei. Voltou a doer e nunca mais quis chorar. Tu foste e eu fiquei. Vi-te a desaparecer, ao fundo, até te transformares num pequeno ponto irreconhecível. Não queria acreditar. Acordei e percebi que estava só. Tão só como no primeiro dia. Custou. Voltei ao jardim onde te conheci. As árvores continuam lá mas as flores são outras. O seu cheiro é diferente, mais intenso, tal como o sentimento que continuo a nutrir por aquele que um dia amei. O amor nunca morre e volta a renascer, todos os dias, de cada vez que me lembro de ti.

Margarida Vale

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