Dormir sem ti


Rebolo para o lado e tento encontrar uma posição confortável para dormir; quase caio da cama quando me lembro de ti. Tento adormecer, mas já não sei o que é uma noite descansada de sono há semanas, e parece que hoje não vai ser exceção.

Olho para o meu telemóvel que está a carregar junto a mim, ansiosamente à espera que por telepatia alguém se aperceba que não consigo dormir e que preciso de alguém que me ajude a passar o tempo. Desbloqueio o telemóvel e, com pena, constato que ainda não desenvolvi poderes psíquicos fortes o suficiente, e penso para comigo mesmo - já que mais ninguém me ouve - que amanhã é uma noite tão boa como qualquer outra para tentar novamente.

Fecho os olhos com força e tento entreter-me, já que o sono anda com alergias à minha pessoa.
Imagino que estou a jogar à bola: acabo de fazer o corte da minha vida, uma bola a rasar a orelha no meio campo. Isolado contra três defesas sou capaz de me livrar de todos eles e ainda fazer uma cueca ao último. Agora é um jogo de xadrez entre mim e o guarda-redes, um jogo com apenas uma jogada e apenas um vencedor, sem possibilidade de empate.

Remato para a direita um pouco acima do guarda-redes e a bola entra. Golo. Corro desvairado com ainda mais afinco junto das bancadas. Viro-me para a multidão que entoa cânticos e me aplaude em pé e lá está ela a torcer por mim como sempre fez.

Acordo sobressaltado. Abano a cabeça e pergunto-me se alguma vez fiz mal ao meu subconsciente e, se sim, qual será a melhor maneira de pedir desculpa.

Olho para o relógio: 02:36.

Talvez o tempo passe mais devagar por mero capricho, e eu, à mercê da sua vontade, tenho que aturar noites com fins infindáveis, que começam e acabam nela.

As coisas mudam, eu sei. Quer dizer, não sei. Eu acho que sei que não posso continuar assim, mas mais que isso é complicado discernir. Já passou um ano e meio. Um ano e meio desde que estiveste nos meus braços pela última vez e desde que te foste embora sem ao menos dizer adeus. Aprendi a perdoar essa falha, e aprendi a perdoar a mim mesmo por não ter dito nada também.

Se tivéssemos tido mais tempo... Onde estaríamos agora? Mas não tivemos. Os dados foram lançados e decidiu-se numa indecisão do acaso que não teríamos mais tempo para além daquele que nos foi dado. E agora eu estou aqui, na cama, com saudades. E tu estás aí, algures; quem sabe, talvez, olhando por mim. Talvez não.

E é por isso que não consigo dormir. É-me impossível conceber a ideia de um mundo injusto que te tirou de mim simplesmente porque sim. Um mundo que tirou a tua alegria de viver, que sugou todos os teus maneirismos e todas as tuas obsessões simplesmente porque podia. E agora, na cama, fico do lado onde tu dormias. Talvez numa próxima vida nos possamos encontrar, mas de qualquer maneira acho isso injusto: porque é que tinhas de ir tão cedo para outra vida e eu tinha de ficar preso nesta sem ti?

Lucas Pereira


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