Quando emigras, o teu coração fica órfão e a vida que deixaste segue sem ti

Hoje decidi olhar para trás...

Recuei no tempo para falar do dia em que o meu coração ficou órfão, pela primeira vez, e escolhi ir atrás de um futuro que me transbordasse. Do dia em que fui embora de tudo o que conhecia na direção do que me alimenta hoje e do que me tira o sono. Do dia em que decidi que o tempo não é apenas um amanhã mudo e que a paixão pela vida não é só sentir o coração aconchegado. Do dia em que quis viver no topo da montanha, debaixo do arco-íris, mesmo que a subida me tenha deixado sem forças e não tenha tido o conforto de casa para me resgatar. Para que não seja tarde de mais e, principalmente, para que não seja nunca, hoje não me vou embora sem contar o que eu realmente sinto desde o dia que deixei Portugal.

Não gosto de falar daquilo que não sinto. Mas hoje quero falar daquilo que muitos sentimos. Muitos mesmo. Por isso, hoje falo de mim e de ti, porque ao fim do dia somos todos feitos do mesmo.

Hoje falo de mim, de ti, algures desse lado, do teu amigo ou amiga, da tua mãe ou pai, do teu irmão ou irmã, da tua filha ou filho, de todos aqueles que tropeçam na saudade todos os dias e só precisam de um espaço acolchoado no peito para repousar. Escrito assim até parece fácil. Mas não é. E, acreditem: não é só coragem, nem o peso que a palavra acarreta, que é preciso para emigrar.

E é por isso que é inevitável não falar de mim, hoje, quando vim para falar de ti, de nós.

Foi preciso sair de Portugal e deixar todo o conforto que conheci, e o único que realmente conheço até hoje, para perceber aquilo que perdi quando me mudei para Paris. Não é à toa que digo que eu sou parte do mundo... Mas a verdade é que não sou de lado nenhum. É assim que me sinto. E o pior de tudo isso é que deixei de ter lucidez suficiente para arrumar todas os quilos de emoções que me atacam todos os dias.

Talvez porque vivo longe da minha família, dos meus amigos, numa cidade tão grande, mas tão vazia. Talvez porque, apesar de ser um sonho para muitos, o MEU, tenho medo que me faltem dias, semanas, meses, anos, para repor tudo aquilo que estou a perder.

Não me posso queixar.

Afinal, não me falta nada: tenho saúde; tenho um companheiro de vida que me ama e que recua dois passos quando eu recuo um - só para me amparar; tenho trabalho; tenho a minha casa; tenho o meu irmão, a minha cunhada e uma sobrinha linda acabada de nascer; tenho alguns amigos, mas aqueles do peito... esses estão lá, do outro lado.

Esses seguem com a vida que eu deixei. Esses continuam os planos das quais eu já não faço parte. E, aos poucos, vais perdendo as datas importantes, as noites de bailarico até às tantas da manhã de copo na mão, os jantares de convívio, as idas à praia e até os momentos, aparentemente, mais banais. Esses deixam, lentamente, de te mandar mensagem, de te telefonar e deixam que as desculpas e o "diariamente" se sobreponham à vontade de te ver, de saber de ti.
Longe de mim achar que fazem por mal... A vida segue, e eu conformo-me.

Às vezes penso que quanto mais tecnologias temos, menos tentamos nos comunicar com quem realmente estimamos.

E, eu? Eu peço vulnerável um pouco de compreensão e paciência. Mas é nessas alturas que a pergunta tímida cala-me as emoções e os sentimentos: como posso pedir uma coisa quando fui eu que escolhi ficar longe dos meus? Quando fui eu que adiei a cumplicidade?

Eu não sei tudo. Mas eu sei que não estou sozinha nesta minha angústia. É inevitável não andar às voltas na cama até às tantas da manhã num país que não é meu. É um problema que se tornou recorrente, silencioso. Que me mata por dentro saber que um dia posso passar a ser uma recordação distante para aqueles com quem cresci. Que a amizade já não seja a mesma. Que a tua melhor amiga ou o teu melhor amigo te "substituam". Contra isso luto, às vezes calada. Luto com a ajuda do meu coração, que tem sido o meu escudo nesta minha caminhada.

Faço de tudo para estar com os meus amigos quando vou de férias a Portugal e mostrar-lhes, acima de tudo, que nada mudou, que estou igual: um pouco mais madura, mais insegura, mas a mesma meia leca sempre pronta para soltar uma gargalhada. SEMPRE. Mas não cabem muitos julgamentos para aqueles que insistem em dizer que não sou capaz de arranjar um tempinho nas minhas muitas idas (e sempre tão poucas) a casa. Danem-se!

Fico triste, sim, quando vejo que vou ter que deixar as novidades para contar numa próxima viagem. Afinal, eu vou de férias e a rotina deles continua. Mesmo, assim, tento. E lá estou eu: com não sei quantos meses de antecedência a proclamar nos grupos do WhatsApp a minha ida a casa. Mas a verdade é que ninguém combina nada com tanto tempo de antecedência. Só tu, eu, nós, que precisamos desse tempo para conseguir arranjar uma viagem baratinha (que às vezes não fica assim tão em conta) para conseguirmos ver os nossos.

Desde que aqui estou que as pessoas que eu, finalmente, consegui ganhar afinidade, ao ponto de chamá-los amigos, são também emigrantes. Ou seja, mais cedo ou mais tarde vou vê-los partir também. Já os vi, e continuo a vê-los ir...  Uns voltam para a casa que sempre lhes pertenceu, outros voam em busca de novos sonhos. E, eu? Eu fico cá, outra vez de mãos dadas com a solidão sem mais um dos muitos que me conseguiram aquecer o coração na cidade da luz.

Sei que já devia de estar mais que habituada a este vai e vem...

Mas não estou. O vazio é sempre o mesmo e só consigo sentir-me completa quando volto ao ninho com todos aqueles que me preenchem. Quando vou com a bagagem cheia e não fica nada, nem ninguém para trás: eu, o meu namorado, o meu irmão, a minha cunhada e, agora, a minha gordinha. Todos juntos no país que nos pertence, junto dos nossos.

A matar a gula da comidinha da mãe e o pequeno almoço do pai. A acordar com os passarinhos a cantar e abrir o dia rodeada com os meus cães, o meu gato, a minha tartaruga, o meu poney, as minhas cabrinhas: sinto tanta, mas tanta falta dos meus bichinhos.

A mim, a ti, a todos aqueles que remam contra a mesma maré que eu: um abraço apertado e um grito de força deste lado de cá. E nunca se esqueçam: apesar das muitas pedras que vão encontrar no vosso caminho, nunca desistam. O 🌞 sempre volta!

chezmoicheznous



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