A carta que vos deixo

Sei que esta minha atitude está a a ser um pouco egoista e egocêntrica, mas só ela poder-me-ia ter levado a esta fuga. Recordas-me? Lembras-te de mim? Sim, sou esse menino. O menino que tinha duas nódoas negras no rosto, um menino tímido e calado, mas por dentro a berrar a sua dor, um menino fora do comum, nada banal. Chamo-me Ricardo, tenho 15 anos. Nem sei bem se são tantos, uma vez que metade deles foram perdidos. Muitas vezes tentaram ajudar-me, eu sei, mas desta vez só eu consegui ajudar-me a mim, tinha mesmo de ser eu. Esta dor jamais poderia passar, uma ferida que nunca ia cicatrizar, porém eu ajudei-me, agora estou recuperado. Esta fase foi uma fase difícil, tentei mesmo arranjar tantas maneiras de me ajudar, mas só esta, a que vês agora à tua frente, só esta conseguiu ajudar-me. Pensei muitas vezes nesta opção de fuga, mas eu podia tratar-me assim tão mal? Poderia eu ser cobarde com todos e também comigo? Podia. Podia porque todos estes anos o meu sofrimento foi aumentando, a minha dor espalhava-se no psicológico do meu corpo, o físico ficava fraco e eu estava a desesperar e a lutar por mim. Sozinho. A minha mãe e o meu pai ligavam mais ao trabalho, desprezavam os meus problemas e colocavam-me de parte. Eu recordo-me, a tua última frase mãe, da frase que já repetias há mais de três dias, lembro-a como se fosse dita mesmo agora, "filho, hoje não". Fechava-me no quarto e só os golpes e os cortes estavam a ajudar-me. Sentia uma falta enorme de pais presentes, de carinho, daqueles almoços de família, dos domingos serem passados juntos com os meus primos, sentia e sinto saudades de ser recordado por todos.
Aquela teoria de serem somente problemas da adolescência exprime-se agora no meu ato. Mãe, tu sabes quantas vezes eu sofria e mantinha-me em silêncio? Sabes quantas vezes me chamaram maricas, paneleiro ou me trataram como merda na escola? Sabes quantas amizades eu estava a perder? Sabes quantas vezes apetecia-me receber um sorriso teu? Sabes o quão desesperado ficava eu quando não podia desabafar nem com os meus pais? Sabes? Imaginas a dor que todos estes problemas iam causando em mim? Mas eu não te culpo mãe. Não te culpo a ti nem culpo ninguém. Talvez eu não estava preparado para estar num mundo cruel como este.
Queres saber outra coisa mãe? Lembras-te de eu ter-te revelado que gostava de rapazes? Tu não aceitaste a ideia, bateste-me, bateste-me muito e eu chorava todos os dias ao lembrar-me desse momento, mas mãe, apesar disso, tu sabes que eu faria na mesma tudo por ti e dava toda a minha vida por ti, porque te amo!
Agora eu sei que vais poder ter o teu tempo para ti, sei também que vou ser lembrado por algum tempo, mas tu tens a tua vida e eu já pouco fazia parte dela, portanto tive de deixar-te ficar. Sozinha não, porque sozinho estava eu a tentar entender o porquê de não me dares atenção, de não me tratares como teu filho. Agora estamos em caminhos diferentes, um por cima e outro por baixo. Se ao menos me tivesses dado um minuto de atenção, prestasses alguma preocupação em saber dos meus problemas, ouvir os meus desabafos, talvez tudo teria sido diferente. Eu já não faço parte desse lugar, não sou bem-vindo a esse espaço tão retrógrado e pequeno. É tudo estranho e esquisito.
Só te quero pedir uma coisa, a ti e a todos os que vão ler esta carta que vos deixo. Sejam mais tolerantes, compreendam que às vezes uma pessoa precisa de alguém porque sente-se sozinha, não lhes neguem essa ajuda, porque esses estão quase no fundo do poço e quando caírem, jamais poderar-se-à ir buscá-los.
Agora retira o meu pescoço desta corda e deixa-me ir para o meu verdadeiro mundo. Agora não vale a pena recordarem-se da minha existência...
Encontraremo-nos brevemente, adeus.

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