Duas da manhã

São duas da manhã. Os nossos dedos tocam-se no remoinho dos lençóis, na preguiça amorosa de quem adormece nos braços do seu refúgio. O meu coração bate fora de compasso. Sempre tiveste um efeito irritante em mim, o meu veneno ainda antes do meu antídoto.
Opostos que se atraem numa pessoa apenas.
Remexo-me. As nossas mãos largam-se, as pernas entrelaçam-se. Movemos-nos em relação um ao outro, gravidade, força estática que nos atrai um para o outro a cada momento sucessivo, a cada novo segundo que o relógio conta.
Abro os olhos- Duas miseras frestas num Mundo onde os Gigantes governam. Volto o meu rosto na tua direcção.
Bolas!
Esqueceste-te de puxar as cortinas de novo. O luar intromete-se no nosso quarto, qual terceiro espectador inusitado de todo um amor que é só nosso e que escritores mais competentes do que eu um dia irão rescrever. Solto uma ligeira gargalhada, abafada pela minha lentidão ensonada.
Estás tão tranquilo. Ergo uma mão cautelosa, por vezes inimiga da perfeição. Tento afastar o teu cabelo revolto do teu rosto de cavaleiro andante. Em resposta, ergues a tua mão protectora, entrelaças os teus dedos nos meus e puxas-me ainda mais para o teu encalço e colocas o teu braço em meu redor.
Dás-me um beijo na testa e voltas a pousar a cabeça na almofada. Todo um movimento de olhos fechados. Será instinto? Será o teu coração de apaixonado que te guia a cuidar da minha vida com o teu corpo?
O meu coração derrete-se um bocadinho mais.
Passo um dedo pela tua bochecha. A lua projecta longas pelas tuas pestanas. Pareces perdido em sonhos. Aventuras que só tu conheces, amores nossos de outras vidas e da nossa.
Como é que acabámos por ficar ao lado um do outro?
O meu coração derrete-se ainda um bocadinho mais por ti.
Coloco os meus braços em teu redor.
Fecho os olhos.
Afinal, estou em casa
Ângela Sofia

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