Lembro-me de dizeres "gosto de ti"

De longe vejo o céu cinzento e as sombras desfocadas das árvores, quase que metade do céu é escondido por elas... mas sem inveja ele adormece na mesma.
É pura beleza um fenómeno da natureza se submeter a outro semelhante a si.
Do nada, fez-se noite. As luzes vão sendo apagadas em pequenos clicks. Ficando eu, apenas com a companhia do meu candeeiro que me segue por entre estas brancas linhas.
O silêncio começa a penetrar as casas, mas no meu caso o silêncio penetra a minha alma.
Num inesperado olhar, esbarro com a minha pessoa no espelho. Dá-se o meu reflexo. Admirada por me ver acabo por me admirar por breves instantes. Percorro a linha dos meus olhos, os traços das minhas maçãs do rosto e contorno os meus lábios. Tal como as luzes, apenas com um click revejo o meu passado. Relembro com frescura as nossas histórias, o som dos nossos risos, oiço o eco das nossas vozes, sorrio ao ver tão de perto as nossas trocas de olhares e arrepio-me ao imaginar o toque dos nossos corpos. Revejo o teu olhar e a forma como o lança na minha direção. Fecho os olhos e faço um esforço para me lembrar do som do bater do teu coração. Sinto uma enorme saudade dos nossos enlaçados abraços.
Volto a fixar-me no meu reflexo e olho para aquela menina que também me olha como se já nos estivéssemos cruzado noutros espelhos.
Todas as lembranças passam à velocidade da luz, com sequências bem estruturadas.
Lembro-me de dizeres que gostas de mim e de concordares em fazermos um esforço... Mas meu amor, quanto mais me envolvo mais sofro.
Mas meu amor, quanto mais penso mais sei que o amor e o tempo não podem ser representados nem implorados.
Mas meu amor, as saudades não são pronunciadas, são sentidas.
Volto a fechar os olhos, num leve lamber de lábios, deixo uma lágrima escorrer pelo meu rosto.
Contenho esta dor de amar e não ser amada e despeço-me de ti, que tanto gosto... Pronuncio baixinho para o coração não ouvir, até um dia.

Daniela Costa

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Amo-te, mas não dá.