Aprendi a amar-me

Ontem chorava porque te tinha perdido enquanto tu sorrias de amores. Hoje invertemos os papéis e eu levanto-me com um sorriso invejável de orelha a orelha enquanto tu ficas a lamentar-te por um amor, que por sinal eu já sabia que não iria ter futuro.
Decidi não avisar-te, não porque queria ter o gosto de te ver sofrer, pelo contrário, queria ver crescer da dor um homem novo tal como eu cresci da minha própria dor. É assim que se enfrenta a vida e que nascem pessoas renovadas.
Fiquei uns dias deitada na cama sem qualquer reação ao mundo exterior, isolada no meu quarto com a minha almofada encharcada em lágrimas e com as marcas de batom que só usava quando me produzia para ti e que por mais lavada que fosse não saiam. Esses eram os meus principais erros. Era apenas usar o batom, a maquilhagem, aqueles brincos e aquele vestido justo a rebentar as costuras que tanto definia a minha silhueta apenas para ti e encharcar a minha almofada de lágrimas por causa de ti. A pessoa que me transformei, feliz e segura por fora, mas completamente triste e arrasada por dentro, só vivia para ti porque no meu mundo só existias tu nem eu mesma existia.
Deixei de gostar de mim, de me sentir bem na rua, de gostar do que via no reflexo do espelho e quando me aperaltava para ti e vivia para ti só queria  ouvir  um  “estás bonita hoje” que me animasse mas nem isso eras capaz de sussurrar-me ao ouvido.
Até que houve um momento em que me levantei da cama, limpei as lágrimas, olhei me no espelho durante uns minutos e percebi que tinha de começar a lutar por algum lado e porque não aprender a amar-me. Reparei na lista de tarefas que tinha de fazer naquele dia, abri a porta que se encontrava ao lado do espelho, entrei na casa de banho, tomei um duche rápido, escolhi o meu vestido preferido com um  decote não muito exagerado, coloquei uma maquilhagem suave e um batom vermelho.
Agarrei na minha almofada ainda húmida das lágrimas, desci ao andar de baixo calcei os meus saltos altos, admirei-me novamente ao espelho e peguei na minha bolsa a condizer com a roupa que tinha escolhido. Ouço a voz da minha mãe ao fundo a perguntar-me onde ia assim arranjada e com a almofada na mão e eu respondi – lhe: “ Tarefa nº 1: ir ao supermercado e tarefa nº2 deitar o passado no contentor”. Saí sem querer saber se estava demasiado produzida para o que ia fazer ou se os outros iam achar me bonita ou não. Eu amava-me assim e isso é que me importava.
Rafaela Rafael

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