O que me vem à memória...

Tudo está diferente. Parece imóvel o que em tempos parecia mover se a mil à hora. As molduras permanecem empoeiradas como sempre e o telefone ainda tem vincado nos seus botões o teu número. Sei porque nota se bem o bacento com que está recalcado e roçado. O espelho está coberto com o lençol que alguém tricotou e nele está tatuada a imagem da solidão. Quadros pintados à mão e outros tantos mais trabalhados fazem a exposição das paredes, onde os pregos parecem viver décadas sem nada que os detenha. Lá ao fundo, no vão da escada encontram se papéis espalhados, talvez o que marca o início do fim ou o fim do início. Não sei precisar ao certo mas no cabide está pendente o casaco castanho de cabedal que penso ser teu. O ambientador da casa já parece nada mais do que o mofo persistente com cheiro a natureza à mistura. Vem-me à memória. Vem-me à memória que no átrio está ainda o baloiço que fizeste para juntos abraçarmos o ar puro, a noite e as estrelas,  e nos vasos ainda se encontram plantadas carcaças pequenas do que outrora foram flores a iluminar aquele lar. Vem-me à memória, que no fundo do corredor está firme a foto de alguém jovem que sonhava a toda a hora e as gavetas do móvel onde passava horas a escrever te estão empenadas com exílio ao chão que remotamente pisamos juntos. Não sei porquê. Mas vem-me à memoria que a casa abandonada fora um dia a casa que talhamos para a nossa felicidade. E não sei porque ela já não existe. Talvez porque tenhas partido e escolhido outra vida. Ou então não. Talvez tenha sido minha a culpa, esse sentimento atroz que veio denegrir a minha bonita ilustração. Olho ao meu redor e tudo se resume à angústia da tua partida, ou da minha não sei. Tentei reaver me mas sem sucesso. No 1º andar ainda estão espalhadas as pétalas de rosas, já secas, com que me brindaste um dia. Na janela ainda residem as pistas das mãos que na vidraça desenharam o adeus. De mim parecem fugir vozes sem nexo de um nada que um dia foi tudo. Vem-me à memória. As horas em que atarefados corríamos pela casa, o tempo que deixávamos à tona de um amor sem barreiras, os copos de champanhe que deixávamos fora do armário para prendar os nossos momentos e os discos de vinil, de músicas escolhidas a dedo com que embalávamos a sala num pezinho de dança.  Mas talvez tenha sido eu quem causou esta situação. A falha pode ter sido minha. Mas se bem me lembro tu saíste de malas e bagagens e ao ombro seguravas o saco de papel com todos os presentes e as fotos que trocámos durante este tempo todo.  Se bem me lembro foste tu que decidiste que este amor em nada mais poderia crescer. Na garagem ainda subsistem as caixas de coisas tuas que não fazes questão de rebuscar. A casa está vazia. Sinto isso desde o momento que lá cheguei. Embora esta tenha sido a 2ª visita que fiz desde que foste. Vem-me à memória os banhos de espuma que me preparavas com emoção, cada vez que me sentia fraquejar com o cansaço. É impossível não sentires nada. Teres esquecido tudo. Receio que a culpa tenha sido mesmo minha pois se bem me lembro foste tu que assim do nada decidiste pôr término a este capítulo. Vem-me à memória, que a desculpa esfarrapada com que me quiseste flagrar foi a de que eu não sentia o mesmo que tu. E sim. Na verdade ela veio dizer tudo. Ela veio mostrar me que nada mais fiz do que sonhar com algo que poderia ser nosso.

Que em vão tracei no mapa da felicidade um destino que por tua causa teria que ser interrompido. Chega-me assim à memória, que o frenesim que me tomava conta do corpo cada vez que me tocavas, não passava agora de uma raiva descontrolada e submissa que subornava a minha pessoa na tua ausência.

E sim. Realmente eu nunca pude ter sentido o mesmo que tu, pois eu senti mais, eu desejei mais, eu sonhei mais mas também sofri em dobro. Realmente estavas certo. Na verdade tu é que nunca sentiste o mesmo que eu, nem estavas inteiro neste amor como eu estava e não tinhas na tua mente os planos que ocupavam dia e noite a minha. Na verdade quando duvidaste dos meus sentimentos para contigo estavas em tudo a acusar-te. Estavas a julgar a tua própria sentença quando meteste em causa a minha capacidade de amar.

Contudo não posso condenar-te nem traçar outro qualquer sentimento que não o de raiva. Raiva por não teres mostrado mais cedo que eras uma perca de tempo. Raiva por ter usado o meu melhor batom para surpreender-te e ter deixado o cheiro do meu perfume mais caro no teu carro. Vem me à memória, o que é impossível esquecer mas contudo não posso condenar te. Ainda bem que aconteceu. Só assim poderei repartir este amor por um novo, e vem-me à memória que sim, este foi um amor por engano.

Rute Isabel

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