Até que a pele deixe de sentir

Vivíamos perdidos nos nossos próprios corpos, como se a pele nos alimentasse, como se nos fizesse viver mais um dia. E se queres que te seja sincera, vivo todos os dias por ti, és tu e apenas tu.

Renascíamos no toque que nos acompanhava à noite, prendíamos tudo à nossa volta e libertávamos os corpos daquela vontade louca do corpo suado, dos lençóis espalhados, da pele a pedir mais e a respiração ofegante a chegar ao limite.

Quando o olhar te completava a pele, o sorriso chegava tão facilmente. E agora que já não me abraças e que a saudade se instala como se fosse ficar para sempre, aprendo todos os dias a ausência do teu beijo, mas chumbo todas as vezes. Rio-me de mim por não aguentar a paixão, mas deixo-a crescer, tal como nós crescíamos quando só os corpos falavam nas noites frias de inverno, como se o tempo fosse infinito e as responsabilidades inexistentes.

Até quando o dever chamava e nós falávamos mais alto só para não ouvir. A voz acabava por se cansar, mas nós não.
Éramos tão perfeitos que o mundo nos trocou as voltas, fez-nos andar para trás,  fez-nos apagar o amor eterno para que o corpo não aguentasse. E o teu não aguentou e eu fiz de mim mais forte só para te amar mesmo quando o amor queria fugir. Deixei-te cair, deixei-te perder. Perdeste e eu perdi a mulher da minha vida!

Completávamo-nos tanto que o mundo nos eliminou, porque sabia que juntos o podíamos eliminar facilmente. Com apenas uma troca de olhares, daqueles que pegam fogo.

Tínhamos tanta chama, mas o mundo não nos deixou crescer. Transformou-nos em cinzas e agora que o vento nos levou eu procuro por ti em cada brisa. Sei que ainda te vou encontrar, nem que seja a última coisa que a minha pele sinta

Joana Caiado

também poderás gostar...