Penso que serei para sempre tua

Entreguei-me.
Perdi os sentidos.
Tornei-me leve, aérea.
Achei que nunca mais iria voltar atrás. Foste o amor da minha vida. O meu céu, as minhas estrelas.
O meu ser.
Amei-te e perdi-te.
Agora sou pesada que nem uma rocha.
Tornei-me numa resistente à passagem do tempo. Uma tela em branco cujos sentimentos ficavam fechados num cofre a sete chaves.
Um espectro de antigamente.
Vagueio pelas ruas.
As pessoas evitam-me na maior parte dos dias. Devo tresandar a más coisas. Mas sou sobretudo uma vitima da vida, quando nunca quis esse papel.
Por vezes é uma merda, mas é o que se arranja.
É demasiado na maior parte dos dias. Admito que é uma das minhas falhas. No dia em que partiste de ao pé de mim, algo começou a faltar. Uma folha em branco, ou um quadro negro que não sei se alguma vez terei de novo.
Aliás...
Até sei...
Tenho as minhas mãos frias. Geladas mesmo.
São dolorosas, as memórias de um tempo que costumava ser nosso. Mas são a única coisa que me resta de ti, e por vezes a única coisa que me permite continuar a sobreviver.
Porque viver... isso é outra história.
Às vezes, tenho que fechar os olhos quando passo por determinado cantinho da cidade, onde a nossa história está gravada.
As lembranças ganham uma vida para além da minha.
Consigo ver o sitio onde demos o nosso primeiro beijo. Onde me disseste que me amavas pela primeira vez. O vão da escada para onde fugimos para nos abrigarmos da chuva.
As nossas gargalhadas perduram no ar, num som que não conheço como sendo meu, mas que me recordo de ter sido nosso.
As minhas mãos não aquecem nem por nada. Sou que nem um fantasma. Um sorriso para nos meus lábios por milésimos de segundo. Lembro-me que detestavas a ideia de esses seres, agora eu mesma sou a ideia de um. Sou um ser que perdeu a sua alma, o seu riso, o seu sorriso, no dia em que o amor da sua vida...
Penso que serei tua para sempre. Não me vejo a ser de mais ninguém.
Levaste-me o coração.
E nem o quero de volta.

Ângela Santana

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